Como seguir o ensinamento Dzogchen e aprender a trabalhar com as circustâncias
Nossa vida deve ser integrada ao conhecimento Dzogchen.
É por isso que este conhecimento deve se tornar cada vez mais concreto. Sabemos qual é o sentido real do ensinamento: não se trata somente de estudar alguns livros ou de fazer algumas análises, porém de compreender que nossa vida está relacionada à nossa condição.
No ensinamento se diz que antes de tudo precisamos descobrir a nossa verdadeira natureza e permanecer neste estado, mas se quisermos descobrir a nossa natureza, teremos de descobrir qual é a nossa condição; isso significa entender que estamos vivendo em sociedade dentro da visão dualista, em função do que surgem muitos problemas. Ainda que não criássemos esses problemas, eles se manifestariam por causa das circunstâncias. O que fazer então, nesses casos?
Depende muito do nosso conhecimento.
Se formos bons praticantes Dzogchen, então saberemos como integrar tudo em sua dimensão real, mas cada praticante deveria se examinar um pouco. Não é suficiente somente pensar: “Sou um velho estudante, faz anos que sigo o ensinamento Dzogchen”.
Alguns pensam: “Conheço o Dzogchen Semde, Longde, Upadesha, fiz muitos retiros, recebi muitos ensinamentos”.
O conhecimento não deve servir para criar uma espécie de vocabulário. O importante é que se torne algo concreto. Pensemos em como passamos um só dia: nós o passamos entre emoções, confusões e dominados pela visão dualista, ou passamos o tempo com consciência? Se formos praticantes Dzogchen, deveremos passar o tempo com consciência.
Consciência significa saber qual é nossa verdadeira condição e, também, (qual é) nossa condição relativa. Se rapidamente tentarmos passar à compreensão da natureza da mente, sem antes entender o que é a mente, isso não faz muito sentido. Portanto, devemos primeiro estar conscientes dos limites de nossa mente, que continuamente cria diversos problemas.
Muitos de fato dizem: “Oh, estou com este problema, estou com esse outro!” Os problemas podem estar relacionados ao corpo físico ou à energia, mas o ponto principal, isto é, a sua raiz, é sempre a mente. Portanto, devemos tentar conhecer os limites e a condição da mente. Em geral, estamos condicionados pela mente, que pensa uma primeira coisa, depois uma segunda, depois ainda uma terceira, e assim por diante, e nós a seguimos e nos encontramos na mais completa distração.
Eis porque no ensinamento Dzogchen o mestre sempre nos diz para tentarmos estar conscientes nas várias circunstâncias. Por exemplo: sabemos que em todos os ensinamentos (no sutra Hinayana, no tantrismo, no Dzogchen, etc…) cada prática começa sempre com o refúgio e a bodhicitta. Por quê? Porque a mente governa as três existências de corpo, voz e mente. Somos como escravos da mente, a qual nem sempre tem consciência e clareza.
A mente pode criar infinitos problemas. Se, por exemplo, estamos sobrecarregados e pensamos em coisas demais, caso não existam problemas, depois eles aparecem; portanto, sabendo que a mente é a raiz de tudo, é importante conhecer a própria condição e os próprios limites. Se estivermos conscientes disso e existirem problemas, encontraremos a solução.
Em geral, porém, as pessoas não sabem disso, não estão conscientes dos jogos da mente, e tudo aquilo que ela cria e projeta é considerado real. Então, esforçamo-nos, lutamos e quando não obtemos nenhum resultado, criamos problemas e mais conceitos ainda. Por esse motivo é fundamental a observação da mente e de suas limitações, as quais estão em estrita relação com nosso ego.
Em nossos pensamentos, em primeiro lugar temos um “EU”, um “EU” gigantesco, quase como se fosse uma condição primordial a ser servida e satisfeita: “Quero isso, preciso daquilo, desejo experimentar aquela sensação, etc”.
Se o indivíduo comporta-se dessa maneira, o grupo também faz o mesmo, se entendermos o grupo como um conjunto de vários indivíduos. Disso nascem conceitos do tipo “nosso partido político, nossa nação, nosso governo, nossa etnia, etc”. Se existe um “EU”, ao qual se atribui muita importância, existem também os OUTROS, que não são “EU”, em decorrência do que surgem inevitavelmente contraposições e conflitos. Igualmente para os grupos: se existe o “nosso grupo”, existem também os outros. A partir daí, desenvolvem-se conflitos e tensões.
Isto não significa, porém, que um praticante que vive no samsara e que se dedica à prática, imediatamente esteja em condições de fazer desaparecer o “EU”, o nosso ego. Enquanto vivermos no corpo físico, todos nós teremos esse tipo de problemas, cuja raiz está relacionada à nossa mente.
Quando no ensinamento Dzogchen se diz que temos de tentar estar conscientes, isto significa que precisamos considerar as circunstâncias, mas não somente as externas, como perguntar, por exemplo: “como está o tempo hoje?”, ou “como é este país e como são as pessoas que moram nele?” Estas são circunstâncias, mas as circunstâncias são também a nossa existência com relação à mente: o que pensamos, quão egoístas somos, etc. Tudo isso podemos descobrir através das circunstâncias. Se, por exemplo, seguimos os ensinamentos do Budismo Mahayana, a primeira coisa que nos explicam é a importância de examinar a própria intenção.
Por que precisamos examinar a própria intenção? Porque ela está relacionada à mente.
A mente está sempre envolvida em seus próprios jogos, os quais nos sujeitam continuamente, e o resultado é que estamos sempre tomados pela confusão e por muitos problemas. Se a mente estivesse consciente, perceberíamos que existe algo que não está funcionando. Se tivéssemos a possibilidade de modificar e mudar alguma coisa pela raiz, nesse caso não teríamos mais problemas. Eis porque no Mahayana atribui-se particular importância à intenção.
Como praticantes Dzogchen, devemos trabalhar muito sob essa ótica. Com isso não quero dizer que nossos praticantes não trabalham nessa direção: sei que entre meus estudantes muitos progrediram, estão conscientes, e sabem como trabalhar com as circunstâncias, mas há muitos que ainda não sabem como fazê-lo.
Alguns seguem o ensinamento Dzogchen, aprendem a fazer mudras, a recitar os mantras, a se concentrarem, a fazer as visualizações, e então pensam: “aprendi o Dzogchen”; depois, ao notarem alguns outros mais aprimorados nos mudras e nos mantras das práticas coletivas, de imediato acreditarão que aquelas pessoas progrediram muito na prática, mas isso na realidade significa somente um pequeno progresso, não é o ponto principal.
O ponto principal é encontrar-se sempre em um estado relaxado. Se estivermos conscientes, não surgirão problemas nem para nós, nem para os outros: isso significa que a pessoa fez algum progresso, porque os problemas surgem sempre do próprio ego.
Quando surgem problemas, sempre tentamos encontrar um responsável e tendemos a pensar sempre que não somos absolutamente culpados e que não temos nada a ver com esses problemas, mas no mesmo instante estamos confessando que temos um problema; esta é uma característica da manifestação do ego.
Não podem existir problemas entre uma pessoa e outra, ou um grupo e outro, se não estivermos diretamente envolvidos. Muitos, porém, pensam que nesse caso precisamos logo mudar, modificar algo. É como se tivéssemos a idéia de operar uma espécie de revolução: se surge um problema, podemos mudar e nos comportar de outro modo. Este, porém, não é o ponto principal como aprendemos 2500 anos atrás, quando Buddha Sakyamuni ensinou as Quatro Nobres Verdades.
AS QUATRO NOBRES VERDADES
Em geral se diz que a Primeira Nobre Verdade é o sofrimento. A segunda é a causa, a terceira é a verdade da cessação e, por fim, como cessar a causa. Não se deve simplesmente descobrir a causa, devemos modificar, ou fazer, algo. Por este motivo, a Quarta Nobre Verdade indica diferentes tipos de métodos… Quando os problemas se manifestam, estão sempre relacionados a uma causa, a qual por sua vez está ligada ao ego. Esta é a raiz que devemos descobrir.
Se existe uma tensão entre vocês e outras pessoas, então não se deve concentrar sobre esta tensão, mas reconhecer que ela existe, o que significa que vocês também estão envolvidos nessa tensão. Não posso operar uma revolução para eliminar ambas as tensões, mas posso seguramente trabalhar sobre a MINHA tensão: posso mudar minhas idéias e, sabendo que existe em mim essa tensão, posso tentar liberá-la. Uma vez liberada a tensão, ao encontrarem aquelas pessoas, mostrar-lhes uma face diferente.
Não é necessário esforçar-se em sorrir, mas pelo menos as outras pessoas observarão que vocês não estão tensos e a tensão delas também diminuirá.
Assim, dia após dia procede-se desse modo e por fim toda a tensão se dissolverá. Se nos comportamos de modo oposto, ainda que em relação a pequenos problemas, permanecemos sempre na visão dualista. Pensamos: “Aquela pessoa está criando este problema, aquele problema”. Dia e noite pensamos nisso e assim surgem ainda mais problemas.
Parecem ir à procura de motivos para provar a culpa daquela pessoa, enquanto se consideram absolutamente inocentes. Procedendo desse modo, seu rosto se mostrará muito carregado e cheio de tensões, assim aumentará ainda mais a tensão da outra pessoa, e por fim se desenvolverá uma tensão fortíssima em ambas as partes.
Isto é somente um exemplo de como se pode liberar, se estivermos conscientes da raiz. O exemplo não concerne somente a duas pessoas, mas também a dois grupos, dois países, duas nações. Se quisermos paz e quisermos fazer algo de bom, deveremos trabalhar conosco mesmos e não pensarmos sempre e somente nos problemas dos outros.
Devemos nos modificar e procurar evoluir; a evolução é muito parecida com a progressão dos números: quando dizemos 1.000, um milhão, dez milhões, cem milhões, o número raiz, com que se deve começar, é sempre o número 1, sem o qual não se poderia passar ao número 2, 3, 4, etc…
Portanto, no contexto da sociedade dos homens, dos seres sencientes, do qual faço parte como indivíduo, eu sou o número um, e então é pelo número um que precisamos começar a modificar e a operar e, se for necessário, fazer mudanças de caráter geral.
Texto transcrito do Web Cast de 15 de agosto de 2001 / Publicado no Merigar Letter n.12 ano VI
Revisão: Vera de Andrada e Silva
terça-feira, 5 de outubro de 2010
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