terça-feira, 13 de abril de 2010

O passado me atormenta

O passado me atormenta

“A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para frente...”

Soren Kierkegard



De alguma forma, seu passado toma conta de sua mente? Seja em sonhos, pesadelos, em suas atitudes? Muitas coisas que você faz ou te fazem, lembra de
alguma forma seu passado que insiste em se manter presente?

Não podemos falar de passado sem nos remetermos ao inconsciente, onde está o registro completo de todos os fatos vivenciados, tanto positivos quanto negativos, quer você lembre ou não, desde sua concepção.


O que é o inconsciente? O inconsciente é um nível mental que difere do consciente em muitos aspectos, não só quanto ao que contém como características, mas também na sua maneira de revelar os fatos, registrá-los, desenvolver a lógica, enfim, sua forma de se comunicar difere e, portanto, sua forma de ser compreendido também, exigindo uma interpretação muito diferente do habitual raciocínio lógico a que estamos acostumados, pois sua linguagem é outra e, para entender essa linguagem é necessário um profissional que trabalhe com essa abordagem, mas é importante que você o entenda para que possa ter uma melhor compreensão do passado que tanto a atormenta.

“Quem tem coragem de enfrentar a si mesma é capaz de se libertar deixando o passado em seu lugar e viver em paz o momento presente”

Na verdade, o passado atormenta quando existem conflitos, que por defesa, foram reprimidos. Havendo muitos sentimentos reprimidos, eles se expressam muitas vezes através dos sonhos, pesadelos, angústia, doenças físicas ou psíquicas, pois em geral, no momento em que aconteceram não puderam ser expressos.


Quando continuamos a reprimir sentimentos dolorosos, resistimos a mudanças e ao confronto com nossos sentimentos, eles insistem em ressurgir, muitas vezes em padrões repetidos de comportamentos e que nem sempre percebemos. O inconsciente tende a repetir padrões do que foi registrado, principalmente o que foi sentido durante a gestação e a infância.

No inconsciente, ficam os conteúdos que alteram e influenciam o comportamento, tudo que é considerado agressivo à consciência. Tais lembranças são reprimidas no inconsciente como forma de defesa e censura interna. Pode-se dizer que o inconsciente é semelhante a um porão, onde se guarda tudo que não queremos ver e onde há bem mais coisas que imaginamos. É o lugar de despejo e que nem sempre se limpa.

Ou seja, as imagens, pensamentos e idéias esquecidas não deixaram de existir, apenas foram reprimidas no inconsciente. A qualquer momento, às vezes depois de muitos anos, mediante um fator desencadeador, como um cheiro, uma música, uma palavra, a atitude de alguém, podem provocar certas reações e comportamentos que não entendemos.

Sempre que houver emoção envolvida na situação, conteúdos do inconsciente podem ser mobilizados e desencadeados. Ou seja, você pode ter reações a determinadas situações que nem sempre entende, pois estas são contaminadas por conteúdos inconscientes. Por exemplo, a impulsividade é agir sem pensar, assim como a agressividade. Ou seja, sempre que agimos pela emoção, não temos o controle consciente.

A tendência em perder o controle da situação é muito forte quando conteúdos inconscientes atuam. É como se viesse à tona toda a emoção do momento original. Certos fatos vivenciados por nós quando crianças podem se manifestar quando adultos com a mesma carga emocional da época em que aconteceu.

Esse total de emoções registradas e reprimidas é o que causa nossas reações atuais. Enquanto isso for inconsciente, ou seja, você não tiver o conhecimento consciente do fato original, não haverá controle. Por isso, é preciso buscar conhecer a origem de suas reações e comportamentos, tornando os conteúdos inconscientes em conscientes, obtendo-se assim, mais controle sobre as próprias reações. É importante entender que quando certos fatos do passado permanecem no presente está sendo criada uma oportunidade de expressarmos sentimentos que na época não tínhamos quem os suportasse conosco.

O conflito, a angústia, os pesadelos, as doenças, tudo isso acontece para mostrar que consciente e inconsciente estão em desequilíbrio. Só através do auto-conhecimento, da análise desses conteúdos inconscientes, podemos mudar comportamentos, atitudes, e obter mais controle sobre nossas ações, enfim, sobre a própria vida.

Há duas formas de alcançarmos conteúdos do inconsciente: através da meditação e da interpretação dos sonhos durante o processo de análise. Para isso é preciso um trabalho interno de introspecção, um comprometimento honesto consigo mesma para conseguir se libertar daquilo que tanto atormenta.

Como as resistências para a mudançae o confronto com aquilo que já causou tanta dor são intensos, muitas pessoas permanecem presas ao passado por medo de terem mais sofrimento, porém quem tem coragem de enfrentar a si mesma é capaz de se libertar deixando o passado em seu lugar e viver em paz o momento presente.

domingo, 4 de abril de 2010

Relação de ajuda no contexto hospitalar

A relação de ajuda no contexto médico-hospitalar: Relato de uma experiência de atendimento psicológico.

Vera Lygia Menezes Figueiredo

* Trabalho apresentado no IV FÓRUM NACIONAL DA ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA (Brasília, DF –Brasil -28/10/2001 a 03/11/2001).



INTRODUÇÃO

“Quando ouço, verdadeiramente, uma pessoa e apreendo o que mais lhe importa, em dado momento, ouvindo não apenas as suas palavras, mas a ela mesma, e quando lhe faço saber que ouvi seus significados pessoais privados, muitas coisas acontecem."

(Carl R. Rogers - 1973:210)

Conheci a sra. V. em um momento de desespero frente a alta hospitalar do seu marido. Fisionomia envelhecida e cansada, uma imensa tristeza na voz ao dizer que não aguentava mais a vida que levava. Um casamento de muitos anos, atualmente ambos na 3ª Idade.

A visitação ao homem idoso hospitalizado atendia à demanda do médico-assistente para um apoio psicológico ao doente: pautas comportamentais discrepantes, reativas de complicações do seu quadro orgânico, tornavam-no uma pessoa de difícil trato. Mas, quem pediu ajuda foi a sua esposa, que o acompanhava na internação. Conversei com o casal, expliquei meu trabalho.

O doente disse não perceber necessidade de uma psicóloga para si, e tentou estender sua opinião para a esposa. Esta refuta e afirma a sua própria necessidade. Neste primeiro encontro, caracteriza-se uma situação que a sra. V. percebe-se com um problema pessoal grave e importante, que tenta resolver e não consegue.

No dia seguinte, pela manhã, houve uma alta hospitalar - a do marido, e uma baixa hospitalar - a dela , a quem prestei atendimento psicológico por quase dois anos até a sua morte.

Com esta senhora, vivenciei seu adoecer, seguido de um ano de um viver liberto das amarras existenciais construídas, e o seu processo de morrer. Pressuponho que a morte, antes de concretizar-se no corpo, já vinha existindo em sua alma. E somente após a visão explícita do seu feio semblante é que a coragem para ser e viver pôde desabrochar. Na hora do tudo ou nada, a tão decantada liberdade pôde ser experimentada.

Através do relato de uma assistência psicológica efetivada ao longo de uma internação hospitalar, estarei entretecendo os postulados teóricos preconizados por Carl Rogers para uma Relação de Ajuda, além de afirmar a Abordagem Centrada na Pessoa como uma potente perspectiva de trabalho para o psicólogo em contexto médico-hospitalar.



FIXIDEZ E A POTÊNCIA DE SER



“Pode-se também formular a pergunta nos seguintes termos:

será melhor gritar e precipitar seu próprio fim,

ou calar-se e barganhar uma agonia mais lenta?.”.

(Milan Kundera)



A sra. V. é hospitalizada por conta de uma forte dor abdominal, que a nauseia e a deixa enfraquecida fisicamente. Exames são prescritos, hipóteses diagnósticas levantadas. Ela recebe sedativos para a dor, além de hidratação venosa, e é mantida hospitalizada para observação e fechamento de um diagnóstico médico.

Apresento-me para o segundo atendimento. No dia anterior, após desfilar suas mazelas e chorar muito, havia pedido que eu a ajudasse. Encontro-a no mesmo estado: prostrada e lamuriante. Quer muito falar de suas agruras familiares, reclama das necessidades pessoais insatisfeitas por não saber como se desvencilhar de problemas que a mantém sempre no mesmo lugar. Não se queixa da hospitalização, pelo contrário, aprecia a atenção e a solidariedade dos profissionais; sente-se acolhida e protegida, distante dos seus conflitos.

Dispomo-nos a trabalhar juntas. Vamos, então, a cada encontro, possibilitando descobertas sobre si mesma, desvelando sentimentos, compreendendo dificuldades... buscas frustrantes ao longo de uns vinte anos para mais, de um amor idealizado pelo esposo e pouco correspondido, no seu entender. Frustração, raiva, revolta... sentimentos ainda não claramente percebidos por não se encaixarem na imagem que tem de si mesma: é aquela que sempre cede, e que por isso pouco pode se cuidar e se poupar. Não se enxerga capaz de libertar-se, está à mercê do outro, através dele existe – esta é sua questão crucial !. Sente saudades de uma filha (que optou por viver sua própria vida, distanciando-se da família), expressa irritação e tristeza por um filho que se assemelha ao pai em temperamento, e que lhe traz aborrecimentos por conta de uma vida pessoal acidentada.

Nos dois últimos dias de sua hospitalização, observo mudanças atitudinais na jovem idosa que, paulatinamente, vão ganhando expressão, e nas trocas com o meio interpessoal hospitalar vão revelando que um processo de crescimento desponta: o reconhecimento e a aceitação de alguns sentimentos, que favorece a reflexão sobre os seus conflitos familiares e as possibilidades de ação a partir disso; o “ensaio” de algumas atitudes com relação ao esposo, nas suas visitações diárias à doente; a iniciativa de re-estreitar laços com a filha distanciada através de telefonemas convidativos à visitação no hospital; as possibilidades do viver, já esboçadas pela aparição da vaidade feminina no seu dia-a-dia no hospital, pelos telefonemas para os amigos, pelas visitas dos parentes que faz questão de solicitar, e também pelas reivindicações para manter-se bem assistida pela equipe de saúde.

A sra. V. recebe alta hospitalar, sendo recomendada uma continuidade no atendimento médico em ambulatório. Disponibilizo assistência psicológica pós-hospitalização por conta da preocupação demonstrada, de sua parte, de não perder um espaço que percebia vinha lhe fazendo bem. Ela fica de entrar em contato.

O campo relacional estava preenchido por ela e eu e a situação, que são o ambiente. Havia um texto (o mundo interno e subjetivo dessa pessoa) e um contexto (tudo aquilo que acompanhava o seu texto). Quando a sra. V. criticou o contexto, pôde rever o seu texto, possibilitando escolher para além das alternativas já prontas, reorganizando as percepções sobre si própria e sobre o mundo, pois “o comportamento se mantém coerente com o conceito de self e altera-se conforme este último também se altera”. (Rogers, 1992:224)

Havia uma incongruência do self, onde se configuravam discrepâncias entre suas necessidades pessoais, a percepção destas, e as ações que permitiriam a sua satisfação. Havia uma auto-imagem construída alhures no passado, que obstaculizava atualizações, gerando uma existência autolimitada que vinha sendo incomodamente arrastada. “O eu que se afirmava vazio está cheio de conteúdo, que o escraviza justamente porque ele não o conhece ou aceita como conteúdo.” (Tilich, 1976:118)

A tomada de consciência de sua experiência pessoal, segundo ROGERS (Rogers & Kinget, 1971), tende a ser uma diretriz no processo de reorganização das suas condutas atuais e das condutas futuras de sua vida.

Com a liberação do self para novas construções no presente, há uma tendência a um aumento da auto-estima por reconhecimento de potencialidades, que podem ser transformadas em atitudes construtivas e prazerosas, e a redução da angústia por afastamento dos grilhões da não-consciência que tendem a paralisar as expressões criativas. Em outras palavras, dá-se ênfase à experienciação da pessoa, onde a preocupação do terapeuta, nos orienta ROGERS (in Wood, 1994:264), deve estar “não com a verdade já conhecida ou formulada, mas com o processo pelo qual a verdade é vagamente percebida, testada e aproximada”.

TILICH (1976:82,139), discutindo a ontologia do ser, aponta o sujeito da auto-afirmação como um eu centralizado, onde ele é um eu individualizado, apesar deste eu somente poder ser este eu porque tem um mundo estruturado, ao qual ele pertence, e do qual ao mesmo tempo está separado. “Empenhar-se pela auto-afirmação faz uma coisa ser o que ela é” (id:15). Há uma opção a ser tomada, certamente espinhosa e muitas das vezes dolorosa, porém libertadora, que é a de possibilitar a potência que se tem de realizar-se contra a resistência de outros seres.

Eis o ponto de partida para uma Relação de Ajuda: “(...) uma das condições quase sempre presente é um desejo indefinido e ambivalente de aprender ou de se modificar, desejo que provém de uma dificuldade percebida no encontro com a vida”. (Rogers, 1991:260) Contudo, esta relação torna-se possível somente quando acontece debaixo de um clima de aceitação e de crença na capacidade daquela pessoa de empreender, na sua maneira singular, o resgate da sua responsabilidade sobre si mesma até onde ela quiser e puder ir.



FLUIDEZ E AS FORÇAS CONSTRUTIVAS DO SELF



“Temos a tendência a ver na força um algoz e na fraqueza uma vítima inocente." (Milan Kundera)

“Mas era justamente o fraco que deveria saber ser forte e partir, quando o forte é fraco demais para poder ofender o fraco.”. (Milan Kundera)



Mais ou menos uma semana após a alta, a sra. V. é internada em estado de emergência, indo direto para a UTI (Unidade de Tratamento Intensivo). Acontece uma cirurgia de longa duração, com momentos críticos pelo seu delicado estado orgânico. Suspeição de câncer intestinal.

A sra. V. pede a minha presença. Momentos difíceis no confronto com a sua realidade de adoecimento, atitudes oscilantes e hesitantes pelo temor da morte. Sentimentos conflituosos relativos aos tratamentos médicos, estados de ânimo flutuantes.

Interconsulta e orientação familiar passam a ser minhas atividades constantes, facilitando as comunicações e amplificando os movimentos de ajuda à doente. A família e a equipe de saúde são estimuladas a participar intensamente desses seus momentos de hospitalização, compreendendo e acolhendo suas necessidades de atenção, de carinho, de apoio enfim.

Com o vínculo terapêutico estreitado em um “setting” flexível e adaptado por nós duas, as variáveis típicas de um espaço hospitalar puderam ser mais bem controladas e minimizadas (telefonemas, entrada e saída no quarto de profissionais ou atendentes, presença da família, etc), possibilitando nesta intimidade momentos de vívidas emoções e 'insights'. Espontânea e corajosamente a sra. V. vai procurando formular planos de ação concretos, já que a experiência da responsabilidade sobre si torna-se mais aceitável. Emerge decidida a modificar sua vida, a permitir-se viver e a ser feliz. Dispensando os familiares da tarefa de “porta-vozes” (comportamento até então habitual seu), procura maiores explicações do médico acerca de sua doença (já consegue, agora, verbalizar a palavra 'câncer'); enfrenta o medo pelo tratamento radioterápico prescrito, e lida de uma melhor forma com a difícil questão de uma colostomia permanente (intervenção cirúrgica de desvio do trânsito intestinal). Complementando este ciclo de tratamento intensivo de saúde, uma nova cirurgia é efetivada. A evidência orgânica da sua doença é afastada, até onde os resultados dos exames clínicos podem revelar.

Recebe alta hospitalar, já demonstrando atitudes de engajamento na responsabilidade dos procedimentos de manutenção do seu tratamento, sendo muito estimulada pela filha, que agora a acompanha permanentemente. Após haver experimentado a possibilidade concreta da morte, a sra. V. optou por ressignificar sua vida e libertar-se para viver. Ela havia deixado a morte para o momento real de sua aparição.

Ao longo de um período de mais ou menos um ano, vem visitar-me de quando em quando para contar as novidades. Sente-se ótima, vívida; diz ter-se dado férias da família, está passeando muito. Sua mudança física é surpreendente, parece ter rejuvenescido uns dez anos. Fala-me das coisas que vem descobrindo, de suas conquistas no âmbito pessoal-familiar-social. Às vezes uma sombra insinua-se no seu semblante, é o medo da recidiva da doença. Mas, logo em seguida, abre um sorriso maroto para falar da estupefação da família pelos seus novos comportamentos.

A família, às vezes, vem aconselhar-se comigo: reclamam das mudanças ocorridas na sra. V. e, relutantemente eu percebo, dizem-se contentes por vê-la tão feliz, “tão bem”. A filha, que com ela caminha incansavelmente ao longo do tratamento clínico, pede-me de quando em quando um apoio psicológico: quer partilhar sua tristeza por temer a recidiva da doença, quer entender a possibilidade de ligação da sofrida vida de sua mãe com o aparecimento do câncer, quer confirmar a importância dos estímulos que vem oferecendo para que sua querida mãe possa viver uma vida de forma mais prazerosa.

Através da relação terapêutica per se, configurada como um instrumento necessário e suficiente para focalizar o universo daquele ser que sofre, o enfoque centrado na pessoa facilita as experiências bloqueadas a virem à consciência e poderem ser simbolizadas, gerando assim uma abertura à experienciação, fundamental ao processo de mudança efetiva.

ROGERS (Rogers & Kinget, 1971) havia preconizado que, na liberdade da experiência, a pessoa sente-se livre para reconhecer e elaborar suas experiências e seus sentimentos pessoais, como ela crê que deve fazê-lo. “(...) uma característica desta mudança é que o indivíduo move-se de um estado em que seus pensamentos, sentimentos e comportamentos são governados pelos julgamentos e expectativas em direção a um estado no qual baseia seus valores e padrões em sua própria experiência”. (Rogers, 1992:183)

A liberdade do self possibilita que os recursos da pessoa (potenciais internos) sejam utilizados de uma forma mais construtiva, resgatando forças revitalizantes (fluidez de energia potencial); criam-se condições de vislumbrar metas vitais mais abrangentes e completas (ressignificação do seu momento existencial), abrindo espaço para um desenvolvimento mais positivo (no sentido de não-danoso) e coerente com sua realidade atual. Adquire-se uma maior autonomia nas atitudes e comportamentos para se alcançar os objetivos pessoais. Não se está obrigado a negar ou a deformar o que sente para conservar o afeto ou a estima dos que desempenham um papel importante na sua vida. Confirmando com ROGERS (1992:225): “O resultado essencial é uma estrutura de self com uma base mais sólida, a inclusão de uma proporção maior de experiência como parte do self e um ajustamento mais confortável e realista à vida”.



A MORTE ENFRENTADA COM DIGNIDADE



“A fraqueza de Tereza era uma fraqueza agressiva que o derrotava sempre e que o transformou numa lebre aninhada em seus braços."

"O que significa ser lebre? Significa que a força foi esquecida. Significa que dali para diante um não é mais forte do que o outro."

(Milan Kundera)



Enfim, um dia, a sra. V. precisa ser novamente hospitalizada por fortíssimas dores. Há indício de metástase (infiltração de células cancerígenas em outra parte do organismo). Uma bateria de exames é solicitada, e os resultados não trazem muita esperança. Por um curto período de tempo, ela ainda consegue voltar para casa, alternando os momentos de internação. Mas a doença perversa ganha a batalha, e no hospital finda por permanecer, fazendo uso de coquetéis de sedativos cada vez mais potentes. Seu enorme sofrimento perdura por uns quatro meses.

Queria ver-me todos os dias. Eu também a queria ver. Combinamos sobre o melhor momento para conversarmos, quando a sós podia 'abrir sua alma', conforme costumava dizer. Havia uma questão que a Sra. V. sempre trazia à baila: como teria sido sua vida, se houvesse desistido do casamento? Foi certo o que fez - prosseguir com ele, ou na verdade abriu mão do seu viver? Ia tentando explorar seus sentimentos no antes e no agora, como um balanço de vida. Pôde comprender que o marido foi o que pôde ser, que muitas prisões foram construídas por ela mesma. Foi-lhe também importante falar sobre os momentos felizes vividos; com que prazer saboreava essas lembranças!

Paralelamente a estes 'mergulhos para o interior de si', havia a realidade dos desconfortos da dor que enfrentava, do avanço da doença, e dos procedimentos médicos necessários porém muito invasivos. A isto tudo reagia com vigor, dando-se o direito de exprimir no tempo e na ocasião propícios os seus sentimentos, os seus desconfortos, os seus desejos, o que favorecia a uma menor ansiedade pela hospitalização e pela sombra da morte. Uma “nova” sra. V. descortinava-se aos olhos dos familiares e da equipe de saúde, pois fazia questão de colocar-se como co-partícipe das decisões sobre o seu corpo e o seu bem-estar. As vezes suas atitudes geravam polêmicas, mas ela tinha um jeitinho todo especial de amortecer os choques, conseguindo conduzir seus momentos de vida de uma forma mais autônoma e melhor ajustada às suas necessidades. O terço final de sua vida, no hospital, foi ocupado com as preocupações sobre a morte, seu desejo quanto ao funeral e os seus pertences pessoais, e como a família ficaria sem ela. Momentos pungentes de despedida , de desespero para os familiares, e de tristeza para a equipe profissional.

Uma tarde quis confidenciar um segredo que, disse-me, carregava desde menina, e que nunca teve coragem de contar para ninguém; ela mesma já não tinha certeza se o fato havia acontecido, mas não queria levar esta lembrança consigo. Tudo veio entrecortado por um mar de lágrimas, soluço, tremores corporais. Mal sabíamos que este seria seu último dia de consciência, pois no dia seguinte entraria em estado comatoso e, após três dias, viria a falecer.

Deste baque, o esposo da sra. V. veio a sucumbir pouco tempo após. Ainda nos encontramos algumas vezes nesse meio tempo; a doença crônica, da qual era portador, evoluiu negativamente com muita velocidade. Sua profunda tristeza o impedia de sair do vazio deixado pela morte da esposa. Ele sentia-se como uma lebre, frágil e indefeso; não conseguiu deixar de ser lebre.

Tendo o processo de experienciação desencadeado, eu percebia que nos intervalos entre os nossos encontros a sra V. 'trabalhava' muito consigo mesma. Pois quando eu me apresentava no dia combinado, ela já ansiosamente queria compartilhar seus sentimentos, contar as últimas novidades ocorridas. “(...) insights significativos ocorrem no intervalo entre as entrevistas,e embora o insight pareça bastante simples, é o fato de adquirir significado emocional (grifo do autor) e operacional que dá a ele o ar de novidade e nitidez.” (Rogers, 1992:139)

Entendo que a sra. V. pôde singularizar o seu processo de adoecer e até mesmo o seu morrer. Na segurança da relação terapêutica, a sra. V. foi capaz de permitir-se experienciar sua verdade, conhecer-se um pouco mais, construir seu presente e vivê-lo, onde “(...) a raiva é mais claramente sentida, mas o amor também; o medo é uma experiência feita mais profundamente, mas também a coragem.” (Rogers, 1991:175)

Termino este relato clínico valendo-me de uma definição sobre o crescimento pessoal, de C. MOUSTAKAS (in Miranda, 1983:10), bastante pertinente à ocasião:

“O sentido de ligação a outra pessoa é um requisito básico para o crescimento individual. O relacionamento deve ser tal que cada pessoa seja considerada um indivíduo com recursos para o seu próprio desenvolvimento. O crescimento, às vezes, envolve uma luta interna entre necessidades de dependência e de autonomia; mas o indivíduo se sente livre para se encarar se tiver um relacionamento em que sua capacidade seja reconhecida e valorizada e em que ele seja aceito e amado. Então ele estará apto a desenvolver seu próprio potencial de vida, a tornar-se mais e mais singular, autodeterminado e espontâneo”.





CONCLUSÕES



“Aqueles que passam por nós,

não vão sós,

não nos deixam sós.

Deixam um pouco de si,

levam um pouco de nós”.

(Antoine de Saint-Exupéry – "O Pequeno Príncipe")



O processo orgânico do adoecer leva a uma ruptura da realidade cotidiana da pessoa. Quando a hospitalização faz-se necessária, um nova realidade será descortinada. Neste contexto, há um pulsar humano dinâmico pelos inter-relacionamentos que se constroem, dos quais passiva ou ativamente o doente participa. Em meio ao sofrimento, o doente tende a procurar quem o conforte, quem sintonize com seus sofrimentos; a hierarquia vertical das categorias profissionais não lhe é tão significativa quanto a hierarquia dos valores humanos.

A pessoa, ao ser hospitalizada, mostra-se geralmente confusa e aturdida com o impacto da doença e com as consequências refletidas na sua vida pessoal-familiar. Quer sair disso, quer voltar a ser o que era e como era, assusta-lhe ser e/ou estar diferente. Seu pedido de ajuda é para partilhar sua confusão, aliviar seus medos, livrar-se do desconhecido que a assusta porque é justamente a perda do controle sobre si que teme.

“Do ponto de vista da Abordagem Centrada na Pessoa”, nos alerta ROSENBERG (1987:20), o ‘foco’ é dado pelo cliente (...). Isto implica que o cliente não só levante os temas e conflitos emergentes, como tenha a liberdade para explorá-los ou abandoná-los no decorrer do processo. Mesmo que se disponha de pouco tempo, este procedimento se mantém.” Assistir psicologicamente ao doente hospitalizado intenta facilitar a liberação do self para vivificar as suas forças construtivas. Assim, esta pessoa transforma-se no seu próprio agente de mudanças. “Uma relação de ajuda significa favorecer ao outro as condições mínimas para seu desenvolvimento” (Morato, in Rosenberg, 1987:25). Para tal, o psicólogo centrado precisa estar imediatamente presente e acessível ao seu cliente, apoiando-se na sua experiência, momento a momento, para facilitar o movimento terapêutico. “Acredita-se que um número pequeno de encontros, ou mesmo um único, tem uma função terapêutica e pode ser suficiente para que o cliente se organize internamente e prossiga sem ajuda”. (Rosenberg, 1987:19).

O método de trabalho de uma 'Relação de Ajuda' pode ser entendido como propiciar um clima contínuo tal de aceitação e liberdade que a pessoa possa re-pensar e avaliar seus desejos e necessidades. Autovalorização e autocorreção são as duas operações fundamentais advindas do conhecimento reflexivo. Este tipo de conhecimento é uma capacidade potencial existente em todo ser humano de compreender-se a si mesmo e resolver seus problemas, de modo suficiente para atingir a satisfação e a eficácia necessárias a um funcionamento adequado para si.

A Intervenção Psicológica Centrada na Pessoa, caracterizada pela Relação de Ajuda, deve ter como fundamentos:

· As atitudes do psicólogo (necessárias e suficientes) que ensejam a função facilitadora do processo de auto-exploração e mudança na pessoa

· A pessoa é capaz de viver e elaborar suas experiências de forma integradora, utilizando os seus próprios recursos potenciais.

Quando necessário, o psicólogo centrado também pode vir a ser um facilitador das comunicações, colaborando para uma maior integração na ação terapêutica da equipe de saúde, através do estímulo à reflexão sobre as atitudes profissionais e a capacidade de escuta refinada, de forma a que possam oferecer um ambiente acolhedor e facilitador para a expressividade da pessoa hospitalizada.

O profissional de saúde, via de regra, escolheu sua profissão motivado pela ajuda ao próximo e comunga um sentimento de humanidade. Muitas das vezes as emoções do doente são identificadas corretamente; contudo, precisa haver uma disponibilidade interna daquele profissional para 'abrir-se ao outro', caso contrário suas intervenções tenderão a ser diretivas, podendo até mesmo inibir ou bloquear a expressividade do doente. ROGERS (1991:290-294) comenta que a maior barreira à comunicação interpessoal é a natural tendência da pessoa para avaliar, julgar, e conseqüentemente aprovar ou desaprovar as afirmações e as atitudes de outra pessoa ou de outro grupo, partindo da apreciação do que foi dito do seu próprio ponto de vista, do seu quadro de referência interno. “Assim, quanto mais fortes forem os nossos sentimentos, com muito mais facilidade deixará de haver elementos comuns na comunicação”. A relação, deste modo, não conduz ao crescimento/desenvolvimento do outro. “E nessa medida creio que agora mais facilmente se evidencie que nem todas as relações interpessoais mantidas pelo indivíduo são consideradas relações de ajuda. Nem todas ajudam a crescer”. (Rosenberg, 1987:26)

Olhar o contexto hospitalar sob o prisma da Abordagem Centrada na Pessoa é considerar as forças dos relacionamentos emocionais nas mudanças, nas restaurações e nas melhoras do indivíduo. É acreditar nas expectativas e valores individuais como as partes mais importantes no sucesso para um bem-estar pessoal, a partir do seu compromisso de trabalhar no sentido da mudança. E isto tanto pode ser verdadeiro para o doente como para o profissional de saúde.

relações grupais

DESENVOLVIMENTO HUMANO E FACILITAÇÃO


Fernando Nogueira Dias



1 – RELAÇÕES GRUPAIS E DESENVOLVIMENTO HUMANO

As Relações grupais são alternadas entre o equilíbrio e o desequilíbrio, quer no que se refere aos processos cognitivos, quer aos afectivos e emocionais. É próprio dos grupos a competição, a imposição de poder, os conflitos, a ordem e a desordem. Tratando-se de grupos familiares, escolares, de companheiros ou organizacionais, estes processos estão neles sempre presentes.

Não se trata aqui de estigmatizar estas situações, como algo indesejável ou negativo. São fenómenos próprios da vivência e convivência humanas. Por isso, saber lidar com estes processos em cada momento da vida é um equilíbrio sempre instável que requer dos actores sociais capacidades permanentemente actualizadas.

Mas nem sempre os protagonistas de uma relação conseguem no seu esforço de gestão quotidiana ultrapassar as dificuldades próprias da incompatibilidade, das dissonâncias cognitivas e dos ruídos que perturbam o normal funcionamento dos actores sociais.

Nestas circunstancias, uns voltam-se para o interior de si mesmos, outros para fora, para aqueles que os rodeiam. Nos primeiros predomina a ressonância cognitiva; nos segundos a exteriorização do turbilhão de pensamentos e sentimentos que, por vezes, revelam dificuldades em controlar.

Quer os sujeitos de perfil introvertido, quer os de perfil extravertido, fazem o seu desenvolvimento pessoal no entrosamento da trama relacional subjacente aos grupos que os envolve no decurso das suas vidas. E é dessa relação que, paulatinamente, cada sujeito vai construindo as malhas tanto da sua identidade, como do seu projecto de vida.

Como o objectivo de cada grupo é que todos os seus membros a ele se adaptem, nem sempre esta finalidade é alcançada, já que cada protagonista social se apresenta com performances diferentes no confronto relacional.

As tensões que resultam do processo dialéctico do sujeito consigo mesmo e de si com os outros conduzem-no, não raras as vezes, a desequilíbrios afectivos e emocionais, para não falar das disfunções psicossomáticas.

Não deixa de ser curioso verificar que todos estes aspectos de desarmonia dos sujeitos consigo próprios ou com os outros estão relacionados com o conceito de incongruência.

Os estados de incongruência, tal como Carl Rogers no-lo apresenta, é um conceito holístico, sistémico por consequência, que concerne aos estados cognitivos, afectivos e emocionais. Por isso, um ser humano em estado de incongruência permanente é um ser em sofrimento constante.

Para alguns indivíduos o sofrimento pode constituir factor de desenvolvimento, face à capacidade de integrarem as adversidades; para outros o sofrimento é motivo de bloqueio e de atrofiamento do seu desenvolvimento.

Por desenvolvimento entendemos o processo que permite a cada ser humano actualizar as suas capacidades na relação com o meio social. Quando a pessoa não encontra no meio que o rodeia as condições facilitadoras do auto-desenvolvimento, as suas potencialidades não se actualizam, e por consequência o sujeito não encontra o caminho do seu próprio equilíbrio e realização.

Vimos nos aspectos relacionados com os grupos que a vivência no seu interior tanto traz vantagens como desvantagens para os sujeitos. Todavia, não significa que umas e outras constituam qualquer tipo de fatalidade. O ser humano está dotado de mecanismos naturais que, quando alertado para tal, lhe podem fornecer as armas necessárias à conquista de um desenvolvimento satisfatório.

Baseando-nos na Abordagem Centrada na Pessoa proposta por Carl Rogers, bem como nos instrumentos conceptuais das Ciências Sociais e Humanas, podemos equacionar um quadro de condições que, postas em acção por um observador, podem facilitar as relações grupais e o desenvolvimento humano.

São elas: o contexto relacional, a observação centrada, a escuta activa, a redução da ambiguidade, a dualidade aproximativa, a atitude não-avaliativa, a aceitação positiva incondicional, a empatia, a congruência, e o feedback.



2 – CONDIÇÕES NECESSÁRIAS AO DESENVOLVIMENTO

O contexto relacional diz respeito ao ambiente próprio à comunicação e à sociabilidade, em condições tais que esse clima é apelativo à convivência dos sujeitos uns com os outros. Referimo-nos a um contexto psicossocial que agrega os actores grupais à volta de um objecto comum de atenção, independentemente da opinião de cada um deles, ou, então, em torno do prazer do silêncio.

É um clima onde se sabe, à partida, que cada sujeito é tido como pessoa humana, que vale por si própria, independentemente do status social. Neste contexto, qualquer iniciativa comunicacional de um dos actores em presença tem, em qualquer momento, o acolhimento necessário e suficiente para a realização de qualquer um ouvir e ser escutado. Trata-se de uma predisposição para, ou, nas palavras de Pierre Bourdieu, um habitus – um habitus relacional, diremos nós.

A observação centrada refere-se à atenção permanente do facilitador relativamente ao seu interlocutor. Dele se espera um olhar atento a todas as formas comunicacionais presentes na interacção, quer elas digam respeito à comunicação verbal, quer à comunicação não-verbal.

Trata-se de um olhar atento para com o outro, fazendo-lhe sentir que toda a sua expressão é tida em consideração, mesmo quando está em causa o seu silêncio. Assim sendo, nenhuma modalidade comunicacional é rejeitada ou desvalorizada – o ser na sua totalidade é tido como sistema auto-expressivo, capaz de nos merecer toda a consideração, mesmo quando possamos discordar dos conteúdos latentes ou manifestos.

A escuta activa é o conjunto de atitudes reveladas pelo facilitador face ao sujeito, que permitem a este perceber que a comunicação é efectiva; que não tem cortes que interrompem a relação.

Nesta situação, ambos os participantes percebem e sentem que, mesmo no silêncio, não há ausências, não há cortes no fio condutor da interacção. O facilitador esta lá, presente fisicamente e em espirito. Dele se espera a bondade de ouvir atentamente o que o outro tem para lhe dizer, como se nunca desligasse o interruptor da relação.

A redução da ambiguidade é um esforço permanente por parte do facilitador, no sentido de nada deixar para trás; aquilo que não compreendeu ou não ficou claro para si. A clarificação pode residir em perguntas ou em reformulações que permitam que os sentidos ou os sentimentos ocupem uma zona comum do campo comunicacional dos interlocutores.

Não diz isto respeito à curiosidade maliciosa de destapar a tampa da panela. É uma atitude de aprofundamento para melhor compreender e, por consequência, melhor interagir. A redução da ambiguidade reporta-se a uma atitude permanente por parte do facilitador em tornar claro para si e para o seu interlocutor o essencial do que e dito e sentido.

Requer, por isso, esta atitude por parte do facilitador um esforço permanente em tornar acessível ao outro e a si mesmo aquilo que naquele momento e naquele lugar revela importância para quem se expressa.

A dualidade aproximativa concerne no movimento de vaivém entre emissor e receptor. Se, por um lado, o facilitador está atento a toda a expressão do seu interlocutor, por outro, não deixa de dar expressão às suas formas de pensar e de sentir. O facilitador é uma pessoa cuja presença deve ser sentida pelos outros, mesmo quando há ausência de discurso verbal. Este não se apaga na relação.

Numa relação grupal, o facilitador procura fazer um esforço de aproximação e de distanciação entre o sujeito que momentaneamente lhe capta a atenção e o grupo na sua totalidade, que não deve escapar a sua visão.

É um movimento que requer sensibilidade especial. Não se trata de repartir o tempo e a atenção equitativamente pelos membros do grupo; é antes uma intenção continua do facilitador em procurar captar os sentimentos e as vivências de cada pessoa, sem esquecer que para alem dela se originam movimentos colectivos que nem sempre coincidem com as posições individuais.

A atitude não avaliativa reporta-se ao facilitador enquanto emissor. Este não tem vedada a sua auto-expressão no sistema interaccional, mesmo quando ela é de afirmação das suas próprias posições relativamente aos outros ou ao assunto em discussão.

Todo o sujeito em interacção é, acima de tudo, uma pessoa, um ser humano em presença. Por isso, a expressão do que cada um pensa é um bem precioso que importa não desperdiçar.

Mas o facilitador está posicionado numa dimensão privilegiada face aos conhecimentos de que é detentor, o que lhe dá naturalmente outra responsabilidade na interacção. Se assim é, evitar atitudes avaliativas relativamente ao seu interlocutor evitará inibições que empobrecem a comunicação e reacções que podem ser desequilibrantes para o sistema interaccional.

Não fazer julgamentos dos outros ou apreciações ao caracter e à personalidade dos participantes, ou ainda classificar os seus comportamentos, é por parte do facilitador uma atitude altamente recomendável. O seu papel não é o de juiz, mas o de uma pessoa disponível para ouvir e aceitar o outro incondicionalmente.

A aceitação positiva incondicional refere-se à consideração que o receptor merece por parte do seu interlocutor, neste caso o facilitador. O facilitador aceita a pessoa sem preconceitos, sem julgamentos prévios. Está em causa não os conteúdos veiculados pelo interlocutor, mas a pessoa na sua totalidade.

Pode em algumas circunstancias o facilitador discordar dos comportamentos ou das atitudes do receptor face a determinadas situações ou processos, mas nunca estará em causa a aceitação da pessoa em si. O facilitador poderá rejeitar a criminalidade, mas não rejeita o criminoso.

A empatia reporta-se à tentativa permanente do facilitador em compreender o outro, individual ou grupal, à luz do seu quadro de valores e do contexto em que ocorre a interacção, sem no entanto deixar de ser quem ou perder a sua própria identidade.

É um esforço em apreender o sentido e a finalidade do outro, para melhor compreender as suas motivações e intenções, como nos refere Max Weber. Mas este esforço requer do facilitador a tentativa de colocar-se no lugar do outro, como se fosse o outro, sem deixar de ser ele próprio.

Será sempre uma intenção e um esforço, é certo, mas a compreensão empática é o único método que o ser humano tem disponível para compreender a alma humana. Compreender empaticamente o outro é ver nele aquilo que ele próprio vê, porque ambos aprenderam e apreenderam a vida no mesmo sistema de comunicação, de cultura e de conhecimento.

A congruência diz respeito à autenticidade na relação por parte do facilitador. Este faz-se sentir na relação tal como é; afirma-se aberto e sem defesas ou mascaras. Por outras palavras: aberto relativamente aos seus próprios sentimentos.

Trata-se de um sentimento e de um sentir que traduzem uma unidade comportamental por parte do facilitador. A congruência é o contrário de dizer uma coisa e sentir outra. Quando isto acontece o interlocutor sente-o, e por vezes expressa-o de forma mais ou menos pacifica.

Do facilitador espera-se que a congruência caracterize o seu estar, a sua expressão e acção na relação com cada membro do grupo e com o grupo na sua globalidade. Dele não se espera dois pesos e duas medidas, de acordo com as situações ou as pessoa.

Espera-se do facilitador um comportamento responsável, equitativo, serio, honesto – numa palavra um comportamento congruente em todos os momentos da dinâmica do grupo, por forma a que os seus participantes sintam confiança, nutram respeito e credibilizem a pessoa e o papel do facilitador.

Feedback é a expressão empregue para traduzir o empenho do facilitador em transmitir ao interlocutor as suas atitudes e sentimentos, especialmente a congruência, a empatia, a aceitação positiva incondicional, a não avaliação, a escuta activa e a observação centrada.

Quando estas atitudes não são claramente expressas pelo facilitador, resta sempre a dúvida ao interlocutor de que ele esteja a merecer a sua atenção. Como sabemos, em pessoas cuja auto-estima não é elevada ou estão a passar por momentos de maior fragilidade, a desatenção do facilitador relativamente a estes aspectos pode minar ou descredibilizar os objectivos a que o grupo se propôs.



3 – POSICIONAMENTO DO FACILITADOR


Como é fácil de constatar, o desenvolvimento pessoal e grupal não é passível de fazer-se à custa da lassidão e da apatia atitudinal. Requer do facilitador um conjunto de atitudes activas e exteriorizadas, por forma a que os membros do grupo sintam a presença de quem tem a responsabilidade de facilitar os processos relacionais.

A não acontecer assim, pode gerar-se nos participantes do grupo um sentimento de incerteza e de insegurança que lhes roubarão a energia necessária à dinâmica do processo interaccional. Por outro lado, não é raro ver em grupos de desenvolvimento sentimentos de raiva, de impotência e de desorientação quando a figura do facilitador por alguma razão se apaga.

Sabendo nós que comunicação gera comunicação, a simples presença de um ser humano em contexto grupal de desenvolvimento assume proporções que noutros contextos não teria.

Os comportamentos não são anódinos – têm sempre uma leitura por parte de quem os percepciona. Por essa razão, a actuação de um observador em funções de facilitação grupal aumenta em função das expectativas que os actores nele depositam. E quanto mais elevadas são as expectativas, maior e a desilusão quando a função de facilitação se resume à mera ressonância dos elementos discursivos do grupo.

É da interactividade daquilo que cada um coloca nos pratos da balança que fará com que ela penda para um ou para o outro lado. Viver, trabalhar ou fazer parte de um grupo de desenvolvimento implica exposição, e esta nem sempre é aprazível ou fácil para alguns. Por isso, o papel do facilitador é imprescindível no desenrolar do processo grupal, como facilitador e interveniente, quando tal se mostra necessário.

Assim sendo, ao facilitador não lhe basta a sua presença física no grupo, apesar de importante. É-lhe também requerida uma presença e uma intervenção que não deixe o grupo resvalar para estados de entropia, onde o conflito reina e o sofrimento toma conta de todos.

E certo que os conflitos são próprios e resultado das diferenças humanas, como também é compreensível que o sofrimento pode conduzir ao amadurecimento e ao desenvolvimento.

Mas não é de esperar que uma relação grupal se caracterize como um lugar de permanente dor e desilusão. O objectivo de um grupo de desenvolvimento é exactamente o desenvolvimento humano, e não o contrário: dor, desilusão, apatia, revolta e desmotivação. Se assim acontece, o grupo é disfuncional – logo, não atingirá a finalidade para que se constituiu: o desenvolvimento humano.

Caberá então, e antes de mais, ao facilitador a responsabilidade de estabelecer um quadro de condições que inspirem a acção de cada actor na relação grupal. Caber-lhe-á, igualmente, a tarefa de facilitar a auto-expressão de cada membro do grupo, bem como saber interpretar o sentido das correntes que circulam no seu interior.

Esta não é uma posição de condução do grupo, e muito menos da sua manipulação. Trata-se da assumpção da responsabilidade que emana do papel ou do estatuto do facilitador das interacções humanas, o que não é sinónimo de um poder superior.

Responsabilidade não é equivalente a poder, no sentido comum, como por vezes se confunde. Responsabilidade é sinónimo de criar as condições de desenvolvimento e zelar pela sua manutenção. É estar atento aos acontecimentos e processos que a cada momento despertam no grupo.

É, ainda, sinónimo de uma atitude ética apropriada quando, munido que está de instrumentos conceptuais procura pô-los ao serviço dos outros de forma oportuna e sensata.

Metodo fenomenologico

Método Fenomenológico de pesquisa

Rogers desejava, em seus estudos, nas usas pesquisas e em suas práticas, saber como percebemos e reagimos a esse mundo multifacetado de experiências .

O interesse de Rogers é pelo vivida de si e do outro – cliente/educando. Mesmo que ele tenha realizado pesquisas positivistas – naquele período quem não realizasse tais pesquisas, poderia ser considerado persona nom grata nas universidades e caía em descrédito clínico – éevidente que ele se utiliza do método fenomenológico existencial para realizar suas maiores descobertas, e a sua prática clínica mesma – de onde advém o material de pesquisa – é humanista, humanista existencial ou fenomenológico.

Assim, a realidade que temos de nosso ambiente depende da percepção que temos dele, que nem sempre pode coincidir com a realidade fatual mesma. Essa percepção é física/fisiológica como na Gestal, mas é fundamentalmente subjetiva.

Dizem Schultz e Schultz (2002), que a noção da percepção é subjetiva. Esta noção – a da percepção - é antiga e não é exclusiva de Rogers. “Essa idéia, chamada fenomenologia , argumenta que a única realidade da qual podemos estar seguros é o nosso próprio mundo de experiências, a nossa percepção interna da realidade” (p. 318). Continuando dizem ainda que,

“A abordagem fenomenológica na filosofia refere-se a uma descrição imparcial de nossa percepção consciente do mundo, exatamente como ele ocorre, sem nenhuma tentativa de nossa parte de interpretação ou análise. Na visão de Rogers, o ponto de vista mais importante sobre o nosso mundo experencial é que ele é particular e, dessa forma, pode ser completamente conhecido somente por nós” (p. 318).

Por isso, a pesquisa fenomenológica está interessada em descrever a vivência do outro, de acordo com o outro, isto é, descrever o vivido pelo outro, a experiência do outro tal qual ele a vive, de acordo total com sua libguagem, ou expressões corporais, entre outros.

Entretanto o pesquisador está implicado nesse processo de pesquisar através do método fenomenológico existencial. O pesquisador não é nem um pouco neutro, pela não dicotomia sujeito/objeto. Disse Rogers que a “(...) a experiência é, para mim, a mais alta autoridade. O critério de validade é a minha própria experiência”.

A esse modo de produzir conhecimentos - apesar, de no início, tentando responder ao positivismo da época, Rogers ter produzido estudos experimentais, entre outros métodos de pesquisa utilizados - ele apresenta uma radical postura de confiança na capacidade do ser humano, na sua tendência natural ao crescimento e na busca de sanidade, na sua atitude de ser livre, decidindo e responsabilizando-se por sua própria existência.


Rogers: Pessoa provoca(dor)a

Esse sujeito provocador foi registrado como Carl Ransom Rogers, mas é conhecido como Rogers. Ele nasceu a 8 de Janeiro de 1902 em Oak Park nos arredores de Chicago. Tinha quatro irmãos e uma irmã, sendo o antepenúltimo dos filhos.

Faleceu em La Jolla, na Califórnia, a 4 de Fevereiro de 1987 em conseqüência de uma fratura do colo do fêmur, provavelmente, comentava-se na época, quando armou e subiu numa escada, dirigindo-se para a soleira do teto de sua mansão. De acordo com as instruções que deixara à sua família, as máquinas que mantinham "artificialmente" uma vida vegetativa, em um hospital, deveriam (e foram) desligadas após três dias de coma, que é uma tomada de decisão ousada até hoje, e cheia de discussões, ora vazias, ora aprofundadas.

Os pais dele, de educação universitária, faziam parte de uma comunidade protestante de forte tendência fundamentalista. A família valorizava uma educação moral, religiosa muito rígida e radical. Era uma família muito conservadora, isto é, muito enraizada nos valores tradicionais e fechada sobre ela mesma, uma família ensimesmada. Entretanto, como podemos imaginar, essa sua família, era intelectualmente muito provocadora e estimulante, principalmente para o menino e o jovem Rogers, uma espécie da metáfora da “ovelha negra da família”, isto é, aquele que destoava, marcando e assumindo, com eficácia, a diferença e que em um futuro próximo, iria brilhar muito mais que aquele núcleo introvertido.
Desde muito novo, Carl Ransom Rogers, mostrou-se interessado pela leitura e pelo "saber". Foi sempre um aluno brilhante. Entretanto era introvertido e algo fechado, mantendo relacionamentos mais com sua própria família, e pouquíssimos fora do ambiente familiar. Ficava mergulhado nos estudos e na leitura de clássicos da literatura e de religião, afastando-se do lazer.

Quando Rogers tem 12 anos o pai compra um pequeno pedaço de terra, como uma chácara, nos arredores de Chicago. A família foi para lá morar. A intenção era uma das mais nobres, fazer uma agricultura "científica". Mas subtendido, a esse “nobre objetivo”, observava Rogers, estava um oculto, o de afastar os filhos dos "perigos da vida da cidade".

A vida na chácara e o trabalho na agricultura levam-no naturalmente a matricular-se, em 1919, no curso de Agronomia na Universidade de Wisconsin. Envolve-se em várias atividades comunitárias desenvolvendo as suas capacidades de "facilitador" e organizador de pequenos grupos e eventos. Entra em contato com meios evangélicos militantes e então, decide mudar de curso, optando pelo de História, e o fez com intenção de se dedicar posteriormente à carreira eclesiástica.

No terceiro ano da faculdade, faz algo que muito o marcou. Viaja para China, integrando uma delegação americana com o objetivo de participar no Congresso da Federação Mundial dos Estudantes Cristãos. A viagem dura seis meses e, no decorrer da mesma, abandona parte das suas convicções religiosas, abrindo-se à diversificação das idéias e opiniões. A China é um país muito rico em tradições e filosofia, e como se não bastasse, era um país marcado pelas idéias de Marx e Engels, que era denominado de país comunista de Mao Tsé Tung, também marxista.

Quando se fala o termo comunista temos que nos reportar acerca do imaginário psicossocial construído em cima dele. Esse imaginário foi e é socio históricamente dos Estados Unidos da América. Por ser o país mais rico do mundo, e com isso, o mais poderoso, ele reproduz tal ideologia para o resto do mundo Ocidental, que apreendemos como verdade única, sem refletir sobre as diversidades de modos de ser. Pois é, Rogers foi à China, e podemos imaginar o impacto dessa viagem no jovem sonhador, e que seria, em pouco tempo, um grande psicólogo e educador.

Ao chegar de novo aos Estados Unidos ganha uma nova independência e autonomia face às opiniões e posições da família. Adquire uma úlcera gastroduodenal, que muito o faz sofrer. Pelos estudos da psicossomática, isto é, os estudos dos efeitos do emocional no organismo, podemos supor que, provavelmente, esse distúrbio surgiu, como resultado deste processo de afirmação de ser si mesmo, diante da pressão de uma família arcaica, tradicional e fundamentalista.

Entretanto tal sofrimento não o desmoronou, mostrando no modo de ser resiliente, isto é, sua capacidade de enfrentar as adversidades e vicissitudes, apesar dos pesares, nunca negando o conflito, mas não submergindo a ele.


Um pastor protestante

Em Rogers persiste uma motivação para uma carreira pastoral. Ele se empenha, social e politicamente, procurando demonstrar a incompatibilidade do cristianismo e da guerra, e para isso, escreve sobre temáticas como o pacifismo do reformador Wyclif ou sobre a posição de Lutero face à autoridade.

Em 1924, Carl Rogers termina a sua licenciatura em História e casa-se com Hellen Elliot, sua amiga de infância, de quem virá a ter dois filhos: David e Natalie. Natalie torna-se renomada feminista e pacifista, e David foi seu colaborador em questões de grupos de encontro.

Após ter obtido a sua licenciatura em História, Carl Rogers matricula-se no Seminário da União Teológica em Nova Iorque. Esse seminário era conhecido pelas suas posições "liberais" em religião, e, ao mesmo tempo, academicamente bem cotado. Rogers recusava a ajuda financeira que o pai, Walter Rogers, lhe oferecia, caso aceitasse matricular-se no Seminário de Princeton conhecido, então, como muito mais conservador.

Durante o primeiro ano nesta instituição, Rogers tem a oportunidade de freqüentar alguns cursos na faculdade de Psicologia, entrando em contato com os psicólogos do porte de Goodwin Watson e William Kilpatrick. Ele ficou marcado por esse conhecimento, provavelmente um conhecimento sentido. Com outros colegas, Rogers organiza um seminário de reflexão auto-facilitado e acaba por tomar consciência da sua "não vocação" para o ministério pastoral.

Essa descoberta não o impediu de realizar um estágio, nessa mesma época, como pastor substituto na paróquia de Dorset em Vermont. Assim, no segundo ano do curso, transfere-se para o Teachers' College da Universidade de Columbia freqüentando o curso de Psicologia Clínica e de Psicopedagogia.

Essa instituição é marcada pela Filosofia de John Dewey que terá um grande impacto na evolução das suas idéias. Para sustentar-se economicamente e à sua família, afinal ele era casado e com filhos, continua a colaborar com instituições eclesiásticas no ensino religioso.

Em 1926, Carl Rogers postula e obtém um lugar de interno no recém criado, pelo Fundo Comunitário de Nova Iorque, o Instituto de Aconselhamento ("guidance": orientação psicológica, psicopedagógica e educacional) Infantil. Após ter recebido um contrato de 2.500 dólares anuais, querem reduzir-lhe o salário para metade, visto não ser psiquiatra, mas “apenas” um psicólogo.

Essa situação é fruto de brigas e desavenças entre sindicatos, devido à reserva de mercado de trabalho; além da arrogância, sócio históricamente construída, da Psiquiatria – e não necessariamente dos médicos psiquiatras. Começa a sua primeira "guerra" com a psiquiatria, mas consegue ser pago em igualdade com os psiquiatras, vencendo mais um obstáculo, um triunfo sobre uma vicissitude.



Rogers cria um Teste Psicológico

Em 1928, Carl Rogers doutora-se no Teachers' College. Na sua tese, ele cria um teste psicológico, direcionado para crianças, que ainda hoje, é utilizado, apesar dos horrores do próprio Rogers e de boa parte dos psicólogos que desconsideram os testes como o principal instrumento desses profissionais; mas que muito marcou a construção social do que é e como é ser psicólogo.

Ele exercia então, o ofício de psicólogo no Centro de Observação e Orientação Infantil da Sociedade para a Prevenção da Crueldade sobre as Crianças, em Rochester. A partir de 1929, dirige este Centro e, durante 12 anos, interessa-se pelo trabalho com crianças delinqüentes, dos opositores da lei e da autoridade constituída, os marginalizados.



Influências recebidas

Nesse ambiente estimulador, conhece o psicólogo e psicanalista Otto Rank que o marca pela sua prática terapêutica - e não pela teoria psicanalítica de Rank. Maior impacto sobre ele, produz Jessie Taft, que publica em 1933 o livro "The Dynamics of Therapy in a Controlled Relationship" que Carl Rogers considerará como uma obra prima, quer ao nível da forma objetiva e científica, quer do conteúdo, escrito de modo literário.

Também o marca, é a fenomenologia, onde se privilegia a importância total de subjetividade e o campo perceptual, pesquisados e estudos por Snygg e Combs. Podemos citar ainda Maslow, e a importância dada por esse psicólogo humanista existencial norte americano, acerca da auto-realização ou para a atualização das potencialidades.

Outro autor que o impressionará é o filósofo existencialista Kierkegaard, no que esse autor desataca como o ser humano em uma procura de seu eu mais íntimo, sendo essa trajetória considerada dolorosa e perturbadora. Recebe influência também do filósofo Martin Buber, e a ênfase desse autor, ao considerar o homem em busca de autenticidade para alcançar a vida plena, e o sentido verdadeiro advindo da comunicação Eu e Tu, e Nós.

É interessante notar, que Rogers afirmava que, dentre as influências teóricas que recebeu, ainda estavam a dos movimentos Zen e o Budismo, nascidos no oriente. Ele também gostava de citar o pensador chinês Lao Tsé, que no poema abaixo, segundo esse renomado psicólogo, resumia um importante princípio da ACP. "Se eu deixar de interferir nas pessoas,/ elas se encarregam de si mesmas./ Se eu deixar de comandar as pessoas,/ elas se comportam por si mesmas./ Se eu deixar de pregar as pessoas,/ elas se aperfeiçoam por si mesmas./ Se eu deixar de me impor as pessoas,/ elas se tornam elas mesmas" (Lao Tsé).



Rogers e Paulo Freire. Quem?! Paulo Freire?!

Em um dos últimos escritos, Rogers, vê relação entre sua prática com Paulo Freire, o pedagogo brasileiro ligado ao marxismo e ao existencialismo . Entretanto, a relação da ACP, a que se refere Rogers, liga-se mais aos compromissos de ambos com os oprimidos e marginalizados. Teoricamente há divergências entre eles, Paulo mais ligado a Hegel/ Marx e Buber, e Rogers a Kierkegaard, e um pouco a Buber, entre outros. Paulo é ligado à Pedagogia e Rogers ligado ao movimento de Psicologia Clínica

A maioria desses pensadores, principalmente Rogers, e às vezes Freire, podemos imaginar, apresentavam em sua produção oral e escrita, uma ou mais características do método fenomenológico existencial de pesquisa, como o enfoque literário da descrição e o valor à experiência vivida. Não é em vão, que uma das caraterísticas do método fenomenológico existencial de pesquisa é o privilégio que se dá a uma escrita de forma literária, poética e artística .

Progressivamente, Rogers abandona uma orientação diretiva ou interpretativa da Psicanálise – predominante nos EUA - e faz opção por uma perspectiva mais pragmática de escuta clínica. Trata-se de uma escuta refinada de seus clientes da clínica e do consultório. Clinicar significa estar junto ao leito de quem sofre.

Essa era, na época, uma posição precursora e audaciosa, e que mais tarde, gerou o começo da estruturação do que se denominaria de Orientação Não Diretiva em terapia ou relacionamentos de ajuda profissional ou leiga.



Rogers psicólogo X psiquiatras: Velha Guerra por mercado de trabalho numa feira de vaidades

A partir de 1935 começa a lecionar no Teachers' College. Nesta instituição Rogers sente-se rejeitado por não ser psiquiatra – naquele tempo essa rivalidade, entre psiquiatra e psicólogo, era muito grande. Assim nem seu ensino e nem o seu estatuto de psicólogo era reconhecido pelo Departamento de Psicologia da faculdade. Entretanto, mais tarde, após vários anos de ensino nos departamentos de sociologia e psicopedagogia, e quando já está para abandonar Rochester, o Departamento de Psicologia reconheceu-o como psicólogo e como docente.

Em 1938, Carl Rogers entra de novo em "guerra" com os psiquiatras. O Centro, em que trabalha e que dirige, transforma-se e amplifica-se e o Conselho de Administração, sob a pressão dos médicos psiquiatras, decide, como era tradição, contratar para diretor um psiquiatra, apesar, de explicitarem satisfação com o trabalho que Rogers.

As razões giravam em torno apenas dele não ser médico. Rogers não se abate e luta contra esse contra-senso advindo exclusivamente da reserva do mercado de trabalho, de luta de poder e da arrogância de categorias profissionais, e não só de médicos. Mais uma vez, mostrando sua força interna de crescimento, ele triunfa e é reconhecido como o primeiro Diretor do novo Centro de Aconselhamento de Rochester.

Em 1939, publica o seu primeiro livro: "O tratamento clínico da criança-problema”, no qual expõe o essencial das suas reflexões e pesquisas realizadas até esse momento, apresentando o teste criado. Nesse livro esboçam-se os princípios da ACP, como a de que, o melhor sujeito para avaliar sua experiência, é o cliente, ou seja, aquele que viveu e vive a experiência.

Com a publicação desse livro começa a ser conhecido na qualidade de psicólogo clínico e é convidado para professor catedrático da Universidade de Estado do Ohio. Responsabiliza-se pela disciplina "Técnicas de Psicoterapia". Nessa disciplina, ele refletia sobre os modelos mais importantes em psicoterapia e aconselhamento, e começa a esboçar suas idéias de uma abordagem terapêutica numa perspectiva mais humanista existencial, e que produz conhecimento pelo método fenomenológico.

Sua perspectiva era a de que as “as novas” terapias, deveriam centrar sobre a expressão do ser do outro, o desenvolvimento e valorização da auto-aceitação, a tomada de consciência do que se é a partir de uma forte experiência, a relação terapêutica entre psicólogo e cliente, entre ajudador e ajudado, entre orientador e orientando. Sua proposta se diferenciava, do que ele denominava de abordagens “velhas”, que enfocavam a análise do passado (traumas na infância, por exemplo), a sugestão (o uso de hipnose ou uma sugestão educativa diretiva, por exemplo) ou a interpretação (como a interpretação dos sonhos, pela psicanálise).

Pela Universidade de Ohio, estimula o ensino e a prática da psicoterapia, assim como a da supervisão, isto é, ele orientava técnica e clinicamente os profissionais de ajuda em dificuldades com seus pacientes. Surge, pela primeira vez, uma inovação: ele passa a gravar e a transcrever, de modo integral, as suas consultas – por meio de entrevistas e/ou de tratamentos psicológicos completos -, mostrando a metodologia de investigação sobre os processos terapêuticos. Rogers não teme em se expor como psicólogo, parecendo aberto às intempéries advindas de ambientes hostís.

Desenvolve, de modo lento e gradual, uma abordagem terapêutica, a partir de sua praxis, que passou a denominar de não diretiva, caracterizada pela escuta refinada. Nessa prática não diretiva, o psicólogo não ficava ansioso em dar respostas e sugestões, muito menos interpretações, pois confiava no organismo humano como capaz dele mesmo mostrar-se na sua experiência fora e dentro do setting clínico.

Rogers sugeria que os psicólogos deveriam restringir-se a utilizar técnicas de reformulação e clarificação dos sentimentos, fundamentados numa atitude de maior aceitação dos sentimentos do cliente por parte do terapeuta, sem julgar e sem punir, permitir o outro ser si mesmo no mundo, do seu modo.

Hipólito (2004), diz que Carl Ransom Rogers só tem consciência da originalidade do seu pensamento quando é confrontado com as reações provocadas pela conferência que faz na Universidade de Minnesota. Isso ocorreu no dia 11 de Dezembro de 1940. Ele intitula-a: "Novos conceitos em psicoterapia" e nela afirma que "o alvo da nova terapia não é resolver um problema particular, mas ajudar o indivíduo a crescer, de maneira que ele possa fazer face ao problema atual e aos problemas que mais tarde apareçam de uma maneira mais bem integrada... ela baseia-se muito mais na tendência individual para o crescimento, saúde e adaptação...".

Esse seu discurso científico, emergido da prática clínica, era muito inovadora, e por isso ameaçou os mais ortodoxos psicólogos, marcados ora pelo Behaviorismo, ora pela Psicanálise. Em segundo lugar, continua a provocar Rogers, "esta nova terapia põe mais ênfase nos elementos emocionais, nos aspectos emocionais da situação, do que nos aspectos intelectuais..." Em terceiro lugar, "esta nova terapia dá maior ênfase à situação imediata do que ao passado do indivíduo..." Finalmente, diz Rogers, "esta abordagem considera a relação terapêutica em si mesmo como uma experiência de crescimento”.

Criticado ou apreciado, ele não deixa os ouvintes indiferentes e toma consciência de que a sua posição relativamente à terapia é singular. Rogers diz: "Pode parecer absurdo alguém poder nomear o dia em que a Terapia Centrada no Cliente nasceu. Contudo, eu sinto que é possível nomeá-lo como sendo o dia 11 de Dezembro de 1940". Essa data passou, assim, a ser considerada, no movimento rogeriano, como sendo a fundadora do movimento, ou, talvez fosse mais justo dizer, o mito-fundador da comunidade rogeriana, continua a nos iluminar Hipólito (2004).

Carl Rogers prepara então uma exposição mais detalhada e sistemática da sua abordagem da terapia. Ele então, publica em 1942, o famoso livro intitulado “Aconselhamento e Psicoterapia”, um clássico para psicólogos e educadores. Os conceitos de "aconselhamento" e "psicoterapia" parecem cada vez mais equivalentes assim como os de "Orientação Não Directiva em Terapia" e "Terapia Centrada no Cliente".

Publica-se, pela primeira vez, e na íntegra, um tratamento a partir da transcrição da sua gravação. Esta obra foi um sucesso e best-seller profissional, apesar de ter passado despercebido aos jornais e revistas da especialidade, quer psiquiátricas, quer psicológicas ou mesmo pedagógicas.

Hipólito (2004) destaca que o reconhecimento oficial de Carl Rogers se exprime em honras profissionais. Ele é eleito vice presidente da Associação Americana de Ortopsiquiatria.

A Ontologia é um ramo da Filosofia que estuda o ser e os modos de ser do ser (humano?), os modos dele aparecer na sua experiência. Uma experiência é descrita com sentido pelo investiga(dor) ou por quem vivencia ela mesma – sua experiência.

Rogers é também é eleito presidente da Associação Americana de Psicologia Aplicada. Entretabto, isso não impede, de Rogers experencie uma ambivalência dessas e outras instituições, manifestada pela falta de apoio e por uma certa marginalização na sua Universidade.

No ano de 1944, é convidado por Ralph Tyler, famoso estudioso de processos de avaliação escolar e não escolar, convida Rogers para ser professor de Psicologia na Universidade de Chicago. Tyler propõe criar um novo Centro de Aconselhamento, especialmente para Carl Rogers, e ele aceita.

Essa sua opção traz-lhes algumas tristezas, pois deixa para traz de si um grupo de discípulos, alguns dos quais se tornaram figuras remomadas e famosas da Abordagem Centrada na Pessoa, tais como, Virgínia Axline (que escreveu o famoso caso de um menino chamado “Dibs: em busca de si mesmo”, “Ludoterapia” etc. ), Arthur Combs, Nat Raskins e John Shlien, ou mesmo, traçando caminhos novos, a partir da ACP, como Thomas Gordon e Eugene Gendlin.

facilitando o processo de aprendizagem

Carl Rogers - Um psicólogo a serviço do estudante
Para o fundador da terapia não-diretiva, a tarefa do professor é liberar o caminho para que o estudante aprenda o que quiser
Márcio Ferrari (Márcio Ferrari)

Foto: reprodução / arquivo pessoalAs idéias do norte-americano Carl Rogers (1902-1987) para a educação são uma extensão da teoria que desenvolveu como psicólogo. Nos dois campos sua contribuição foi muito original, opondo-se às concepções e práticas dominantes nos consultórios e nas escolas.

A terapia rogeriana se define como não-diretiva e centrada no cliente (palavra que Rogers preferia a paciente), porque cabe a ele a responsabilidade pela condução e pelo sucesso do tratamento.
Para Rogers, o terapeuta apenas facilita o processo. Em seu ideal de ensino, o papel do professor se assemelha ao do terapeuta e o do aluno ao do cliente. Isso quer dizer que a tarefa do professor é facilitar o aprendizado, que o aluno conduz a seu modo.

A teoria rogeriana – que tem como característica um extenso repertório de expressões próprias – surgiu como uma terceira via entre os dois campos predominantes da psicologia em meados do século 20. De um lado havia a psicanálise, criada por Sigmund Freud (1856-1939), com sua prática balizada pela ortodoxia, e, de outro, o behaviorismo, que na época tinha B. F. Skinner (1904-1990) como expoente e se caracteriza pela submissão à biologia. A corrente de Rogers ficou conhecida como humanista, porque, em acentuado contraste com a teoria freudiana, ela se baseia numa visão otimista do homem.

Para Rogers, a sanidade mental e o desenvolvimento pleno das potencialidades pessoais são tendências naturais da evolução humana. Removidos eventuais obstáculos nesse processo, as pessoas retomam a progressão construtiva. "Ele chamou a atenção para a formação da pessoa, a importância de viver em busca de uma harmonia consigo mesma e com o entorno social", diz Ana Gracinda Queluz, pró-reitora adjunta de pesquisa e pós-graduação da Universidade Cidade de São Paulo.

Rogers sustentava que o organismo humano – assim como todos os outros, incluindo o das plantas – possui uma tendência à atualização, que tem como fim a autonomia. Na teoria rogeriana, essa é a única força motriz dos seres vivos. No caso particular dos seres humanos, segundo Rogers, o processo constante de atualização gerou a sociedade e a cultura, que se tornam forças independentes dos indivíduos e podem trabalhar contra o desenvolvimento de suas potencialidades.

O saudável é natural

Uma crença básica de Rogers é que o organismo humano sabe o que é melhor para ele e para isso conta com sentidos aprimorados ao longo da evolução da espécie. Tato, olfato e paladar reconhecem como prazeroso (sabor e cheiro agradáveis, por exemplo) o que é saudável. Igualmente, nossos instintos estão prontos a valorizar a "consideração positiva", conceito rogeriano que engloba atitudes como cuidado, carinho, atenção etc.

Até aqui, tudo bem – as pessoas sabem o que é bom para elas e podem encontrar aquilo de que necessitam na natureza e na família. O problema, segundo Rogers, é que a sociedade e a cultura desenvolvem mecanismos que contrariam essas relações potencialmente harmoniosas. Entre os mais nocivos está a "valorização condicional", o hábito que a família, a escola e outras instituições sociais têm de apenas atender às necessidades do indivíduo se ele se provar merecedor.

Decorrem disso a "consideração positiva condicional" – cujo exemplo típico é o carinho dos pais dado como recompensa por bom comportamento – e a "autoconsideração positiva condicional" – originada pela tendência que as pessoas têm a absorver os valores culturais e utilizá-los como parâmetro para a valorização de si mesmas.

Funcionalidade plena

Do conflito entre o indivíduo ("sou") e o que se exige dele ("devo ser") nasce o que Rogers chama de incongruência, que gera sofrimento. Esse é o processo que, para ele, define neurose. Ao se ver pressionada a corresponder às expectativas sociais, a pessoa se vê numa situação de ameaça, o que a leva a desenvolver defesas psicológicas.

Diante disso, o objetivo do terapeuta e do professor é permitir que seus clientes e alunos se tornem pessoas "plenamente funcionais", ou seja, saudáveis. As principais marcas desse estado de funcionalidade são a abertura a novas experiências, capacidade de viver o aqui e o agora, confiança nos próprios desejos e intuições, liberdade e responsabilidade de agir e disponibilidade para criar.

Já que se tornar uma pessoa saudável é, basicamente, uma questão de ouvir a si mesma e satisfazer os próprios desejos (ou interesses), as melhores qualidades de um terapeuta ou de um professor são saber facilitar esses processos e interferir o menos possível.

É esse o significado do termo "não-diretivo", a marca registrada do rogerianismo. Para que o terapeuta ou o professor seja capaz de exercer tal papel, três qualidades são requeridas: congruência – ser autêntico com o cliente/aluno; empatia – compreender seus sentimentos; e respeito – "consideração positiva incondicional", no jargão rogeriano. "O difícil na teoria rogeriana é mudar a postura diante do outro e não se surpreender com o que é humano", diz Ana Gracinda. Em grande parte, para Rogers, a chave do ensino produtivo é uma questão de ética.

Para pensar

Uma crítica que se costuma fazer à influência de Rogers na educação é que suas idéias incentivam uma liberdade sem limites, permitindo que os alunos façam o que querem, levando à indisciplina e ao individualismo. Outra objeção comum, desta vez no campo teórico, é que Rogers via os seres humanos com excessiva benevolência, sem levar em consideração possíveis impulsos inatos para a agressividade, a competição ou a autodestruição. Baseado em sua experiência em sala de aula, qual é sua opinião? É possível fundamentar a prática pedagógica na idéia de que todo aluno tem tendência natural ao aprendizado e a relações interpessoais construtivas?
O mais importante é a relação aluno-professor

No campo da educação, Carl Rogers pouco se preocupou em definir práticas.

Chegou a afirmar que "os resultados do ensino ou não têm importância ou são perniciosos". Acreditava ser impossível comunicar diretamente a outra pessoa o conhecimento que realmente importa e que ele definiu como "a verdade que foi captada e assimilada pela experiência pessoal".

Além disso, Rogers estava convencido de que as pessoas só aprendem aquilo de que necessitam ou o que querem aprender. Sua atenção recaiu sobre a relação aluno-professor, que deve ser impregnada de confiança e destituída de noções de hierarquia.

Instituições como avaliação, recompensa e punição estão completamente excluídas, exceto na forma de auto-avaliação. Embora anticonvencional, a pedagogia rogeriana não significa abandonar os alunos a si mesmos, mas dar apoio para que caminhem sozinhos.
Teoria adequada a um tempo de contestação


Hippies norte-americanos dos anos
1960: contracultura adotou as idéias
de Rogers.
Foto: John Dominis/Getty ImagesNascido no meio rural, Carl Rogers foi marcado por toda a vida pela idéia da natureza e pelo fenômeno do crescimento – o objetivo de sua terapia era crescimento pessoal e não uma idéia estática de maturidade emocional –, o que o levou a se aprofundar no estudo da obra do educador e filósofo norteamericano John Dewey (1859-1952). Como alguém cujo tempo de vida quase coincidiu com o século 20, Rogers teve a possibilidade de testemunhar o surgimento de várias correntes psicológicas e a disseminação da psicoterapia – um conhecimento indispensável para que, por oposição, ele criasse a sua própria corrente.

O aspecto marcadamente antiautoritário e anticonvencional de seu pensamento o tornou muito atraente nos anos 1960, durante o auge da contracultura, representada em parte pelo movimento hippie.

No Brasil, a influência de Rogers também se deu por essa época, em particular na formação de orientadores educacionais. "Os orientadores agiam em grande parte como mediadores de conflito e o conhecimento de Rogers permitia que eles pudessem exercer a função sem punições, mas também sem fechar os olhos para os problemas", diz a educadora Ana Gracinda Queluz.
Biografia

Carl Ransom Rogers nasceu em Oak Park, perto de Chicago, em 1902. Teve uma infância isolada e uma educação fortemente marcada pela religião. Tornou-se pastor e encaminhou os estudos para a teologia, quando começou a se interessar por psicologia. Na nova carreira, o primeiro foco de trabalho foram crianças submetidas a abusos e maus-tratos. Por essa época começou, por observação, a desenvolver suas teorias sobre personalidade e prática terapêutica. Aos 40 anos publicou o primeiro livro. Seguiram-se mais de 100 publicações destinadas a divulgar suas idéias, que ganharam seguidores em todo o mundo.

Rogers quis provocar uma ruptura na psicologia, dando a condução do tratamento ao cliente, e não temeu acusar de autoritários a maioria dos métodos hegemônicos na área. O pilar da terapia rogeriana são os "grupos de encontro", em que vários clientes interagem. Rogers foi um dos primeiros a gravar e filmar as sessões de terapia. Morreu de um ataque cardíaco em 1987, em San Diego, Califórnia.

experiencia emocional corretiva

Não existe isso a que chamam de integração total.
A integração nunca se completa; a maturação nunca se completa.
Ela é um processo sempre em andamento.
PERLS (1977, p. 95)



É cada vez maior a demanda, nos dias de hoje, por trabalhos terapêuticos que sejam úteis em um tempo relativamente curto. Quer seja pelo alto preço de uma terapia de longo prazo, quer seja pelo estilo de vida que caracteriza nossa apressada cultura nesse começo de século XXI, quer seja pela maior possibilidade de se dar acesso aos recursos da psicoterapia às pessoas de menos poder e de menor poder aquisitivo, quer seja porque hoje há mais pessoas que podem se beneficiar de intervenções psicoterapêuticas rápidas, quer seja porque essa é a modalidade de psicoterapia pela qual os planos de saúde aceitam pagar, o fato é que há um espaço enorme e crescente para esse tipo de trabalho.

Em Gestalt-terapia há ainda muito a se desenvolver sobre esse tema, e esse artigo é a uma forma de colaborar com esses estudos.

Para quem estuda as fundamentações teóricas sobre os trabalhos psicoterapêuticos de duração mais curta, há alguns conceitos que atravessam as diversas correntes teóricas, sendo aplicáveis, com algumas adaptações, a todas elas; são, geralmente, conceitos provenientes das primeiras teorizações sobre as psicoterapias breves.

Um desses conceitos seminais para os trabalhos de curta duração foi formulado pelo psicanalista Franz Alexander, em um livro que organizou, em 1946, com Thomas French, “Terapêutica Psicanalista”.

Trata-se daquilo que Alexander denominou de “experiência emocional corretiva”. Minha intenção aqui é apresentar e discutir esse conceito de Alexander sob a ótica da abordagem gestáltica, ponderando sobre como as idéias de Alexander podem ser aproveitadas em um trabalho de Gestalt-terapia de Curta Duração.

Quando se trata de trabalho psicoterapêutico feito em um tempo relativamente curto, o nome que se dará a essa atividade dependerá da abordagem teórica que fundamenta o saber do terapeuta. No entanto, independentemente do nome, ou seja, quer se fale de psicoterapia breve, de aconselhamento psicológico, de psicoterapia de curta duração, está-se tratando de um tipo de trabalho que tem algumas características básicas.

Seja um trabalho de base psicanalítica, seja um trabalho de base comportamental, seja um trabalho baseado em uma teoria fenomenológica, como é o caso da Gestalt-terapia de Curta Duração, o fato é que esse trabalho se estruturará especialmente a partir de quatro aspectos essenciais:

a) o sintoma, quer dizer, a queixa trazida pelo cliente;

b) a (de)limitação do olhar terapêutico, ou eleição de foco para o trabalho;

c) a compreensão diagnóstica;

e d) a relação terapêutica. Cada corrente teórica em psicoterapia compreenderá e trabalhará de uma maneira própria cada um desses quatro aspectos, mas não há a possibilidade de uma psicoterapia de curta duração que não os leve em delicada conta.

Daqui por diante, discutirei uma das faces do quarto aspecto, talvez uma das particularidades da relação terapêutica mais importantes para as psicoterapia de curta duração: o fato de essa relação possibilitar ao cliente uma experiência emocional de crescimento.

Esse tema, levantado, como já vimos, por Alexander (1965), é bastante desenvolvido nas teorizações, psicanalíticas ou não, sobre as psicoterapias mais breves (conforme BELLAK; SMALL, BRAIER, FERREIRA-SANTOS, FIORINI, GILLIÉRON, LEMGRUBER, YOSHIDA, dentre outros) Alexander defendeu que, numa psicoterapia breve, a relação terapêutica deva ser uma experiência emocional corretiva.

A partir de um ponto de vista gestáltico, embora a premissa de Alexander possa ser, em parte, incorporada, ela precisa ser, em parte, reelaborada. Para o gestalt-terapeuta, a relação terapêutica não é uma experiência emocional corretiva, mas uma experiência emocional atualizadora.

A experiência emocional vivida pelo cliente em Gestalt-terapia de curta duração não poderia ser chamada de experiência emocional corretiva, como se usa na maioria das abordagens psicanalíticas em psicoterapia breve, porque na abordagem gestáltica não se parte do princípio de que algo deva ser corrigido no cliente, mas, sim, de que algo precisa ser atualizado para que ele volte a desenvolver-se, atualizando continuamente seus potenciais.

Se em Gestalt-terapia se trabalha com a noção do auto-atualização e com o conceito de ajustamento criativo e a conseqüente idéia de que mesmo as reações neuróticas ou psicóticas são ajustamentos criativos, seria incoerente pensarmos em corrigir aquilo que foi criativo e vital um dia. O problema atual do cliente é que aquela solução criativa se cristalizou e agora precisa ser atualizada, não corrigida. Ela não foi um erro, muito antes pelo contrário.

A distinção que proponho aqui não é apenas um jogo ou uma mudança de palavras, mas uma posição bastante diferente quanto à compreensão diagnóstica que se faz no processo terapêutico, a qual, por sua vez, trará diferenças quanto à compreensão do sintoma, quanto à eleição do foco, quanto ao posicionamento do terapeuta diante de seu cliente. Em suma, quando compreendemos que a atualização não é uma correção, fazemos uma psicoterapia diferente, mais útil para o cliente.

Quando se fala em uma experiência emocional corretiva, parte-se de um princípio psicopatológico de que haveria uma maneira certa de se reagir às situações da vida, uma maneira que o cliente não logrou alcançar e, por isso, desenvolveu uma neurose ou uma psicose. Esse ponto de vista não faz sentido para o olhar gestáltico, por uma série de razões que discutirei daqui por diante. Antes, porém, de começar a discutir essa diferença do ponto de vista da Gestalt-terapia, parece-me importante compreender melhor o conceito desenvolvido por Alexander e as premissas das quais deriva este conceito.

Para compreendermos a posição de Alexander no desenvolvimento de trabalhos psicoterapêuticos breves, é importante um rápido olhar histórico, com ênfase no desenvolvimento da psicanálise, teoria de fundamento de Alexander e de início de Perls. Segundo Gillierón (2004, p. 27), Freud, depois de ponderar sobre as sugestões de Ferenczi e Rank, os quais propunham um analista mais ativo no processo, rejeita veementemente essas idéias de seus colaboradores e “recomenda novamente ao analista manter-se ‘atemporal’, com o intuito de chegar mais perto do inconsciente do enfermo”.

Essa sugestão de Freud data de 1920, ano importante para a psicanálise, pois é ali que, segundo Gillierón (2004, p. 29), delineiam-se duas correntes diferentes no movimento psicanalítico da época: uma, mais ortodoxa, cujos esforços se voltam para pesquisas metapsicológicas, dando pouca atenção às questões ambientais; outra, mais voltada para os aspectos técnicos da psicoterapia, cujos precursores serão, em especial, Ferenczi e Rank, que “optará por aprofundar o estudo da relação terapêutica.” Essa segunda corrente exerceria, um pouco mais tarde, importante influência sobre Fritz Perls e sobre suas formulações para a Gestalt-terapia.

Assim é que dessa corrente de orientação mais clínica surgiram, dentre os fundadores da Sociedade Psicanalítica de Viena, alguns dos mais importantes dissidentes de Freud: Adler (que buscou um trabalho analítico mais centrado no consciente que no inconsciente, mais centrado nos conflitos atuais que nos infantis, perspectiva que influenciou profundamente o trabalho de Perls e de seus seguidores), W. Steckel (que propôs uma técnica parecida com a de Adler e “dizia pretender evitar uma infantilização dos pacientes, afirmando até que apenas os tratamentos de duração breve tinham alguma chance de sucesso” [apud GILLIERÓN, 2004, p. 35]), Jung, (que buscava uma maior atividade do terapeuta, um maior interesse pela situação atual do paciente, “a passagem ao face a face, a redução da freqüência das sessões, a tentativa de evitar a regressão” [apud GILLIERÓN, 2004, p. 36]).

Além desses, e posteriores a esses, podemos colocar também Sandor Ferenczi e Otto Rank como dois dissidentes de Freud e importantes teóricos da psicoterapia breve.


Quanto a Rank, segundo Yoshida (1990, p. 15), sua dissidência se deveu à defesa do conceito de will-therapy (terapia da vontade), algo muito parecido com um dos critérios fundamentais para a indicação da psicoterapia de curta duração, a motivação para mudar. Rank foi um dos principais influenciadores do trabalho de Perls, pois grande parte da orientação humanista da Gestalt-terapia se deve a algumas influências sofridas de Otto Rank, que acreditava que a primeira luta humana é aquela pela individuação pessoal, o que se tornou também uma das preocupações centrais da Gestalt-terapia.

A idéia da resistência vista como criativa e como facilitadora de uma nova organização pessoal também advém de Rank e é capital na Gestalt-terapia. A resistência não deve ser combatida, mas sim deve ser trazida à consciência do cliente e respeitada como um limite do seu agora. (RIBEIRO, 1985, p. 22)

Franz Alexander e Thomas M. French foram continuadores de Ferenczi e Rank e autores do livro Terapêutica Psicanalítica (cuja primeira edição é de 1946), marcante na história das psicoterapias breves. Os dois “propunham uma atitude francamente ativa por parte do terapeuta, [...] a fim de se evitarem regressões excessivas que terminam por exacerbar a dependência e as resistências do paciente, levando ao prolongamento desnecessário da análise”. (YOSHIDA, 1990, p. 16) É nesse livro que Alexander expõe e desenvolve o princípio de experiência emocional corretiva, objeto dessas discussões que faço agora.

O conceito de Alexander fundamenta-se em uma premissa que é básica em psicanálise e que, por via disso, está também presente na maioria das abordagens em psicoterapia, inclusive na abordagem gestáltica, embora com compreensões um pouco diferentes: trata-se da idéia de que a neurose teria uma etiologia, ou seja, uma causa ou uma origem em um período anterior, geralmente na infância.

Se na psicanálise esse conceito é basilar, em vista da compreensão determinista que Freud lançou sobre o ser humano, em Gestalt-terapia, não encontraremos solo para essa visão determinista sobre o ser humano. Mas está presente na abordagem gestáltica a idéia de que somos uma construção ao longo do tempo, ou seja, de que o ser humano se constrói no correr da vida.
Assim, a compreensão que o gestalt-terapeuta tem de seu cliente também se utiliza de concepções etiológicas. Em outros termos, podemos dizer que, em Gestalt-terapia, se não somos deterministas, muito menos desprezamos a influência do passado na configuração atual de cada pessoa.

Para Alexander, há, em um processo psicoterapêutico, um princípio básico: a necessidade de se expor novamente o cliente, em circunstâncias mais favoráveis, a condições nas quais apareçam emoções com as quais ele não pôde lidar adequadamente no passado. Nas palavras de Alexander (1965, p. 83):

a fim de poder receber ajuda, ele deve passar por uma experiência emocional corretiva adequada para reparar a influência traumática de experiências anteriores. É de importância secundária se essa experiência corretiva tem lugar durante o tratamento ou na vida cotidiana do paciente.

Para Alexander (1965), a fim de que essa experiência emocional corretiva possa ter lugar, é preciso que o terapeuta adote uma atitude diferente daquela esperada pelo cliente, quer dizer, é importante que o terapeuta não se renda às repetições ou expectativas de repetições do cliente: “ainda que o cliente continue atuando em conformidade a pautas antiquadas, a reação do analista se adapta estritamente à situação terapêutica real” (p.83), o que ajudará o cliente, mais do que a ver, “a sentir a irracionalidade de suas reações emocionais” (p. 83).

Dessa forma, “a atitude objetiva, compreensiva, do analista, permite ao paciente encarar de maneira diferente suas reações emocionais e fazer, assim, uma nova definição para o velho problema” (p.84). O essencial aqui é que a reação do terapeuta ante seu cliente é diferente da reação esperada pelo cliente, uma expectativa que, por sua vez e via de regra, se baseia nas respostas habituais do ambiente do cliente, desde a infância. Dessa forma, não é o cliente como um todo que é deliberadamente frustrado, mas, sim, algumas de suas expectativas, exatamente aquelas que sustentam sua neurose e seu sofrimento. Fritz Perls foi um mestre na arte de provocar esse tipo de frustração, como podemos ver nos vídeos de seus trabalhos terapêuticos e em muitos de seus textos.

Alexander (1965, p. 84) enfatiza também que somente a compreensão intelectual desse esquema não basta, pois a mudança só se dá “mediante a experiência real na relação entre paciente e terapeuta”. Nessa relação, é necessário que o terapeuta tenha uma compreensão clara sobre seu cliente, de maneira a que possa perceber quando se reativam no cliente vivências anteriores e, assim, proporcionar “mediante sua própria atitude, as novas experiências necessárias para gerar resultados terapêuticos”. Essa atitude do terapeuta deve ser cuidadosamente conscientizada, de modo a evitar um certo tipo de espontaneidade, uma vez que há o risco de “repetir a impaciência do genitor ou a solicitude que originaram a neurose, e, assim, não constituir a experiência corretiva necessária para a cura” (Alexander, 1965, p. 85). Nesse sentido, na abordagem gestáltica diríamos que é necessário confrontar o cliente, tomando muito cuidado, quanto a o quê e quanto de sua reação o terapeuta pode demonstrar para o cliente na situação terapêutica. Como bem lembra Quattrini (2004, p. 60):

deixar transparecer não significa deixar transparecer o todo. [...] E se não se trata do todo, a questão será escolher e o parâmetro deverá ser congruente com a situação: em uma determinada situação terapêutica será necessário escolher aquilo que seja mais de acordo com a mesma. Que é que faz bem ao paciente?

Alexander (1965, p. 86) lembra que essa experiência emocional corretiva não produz resultados imediatos e certos, pois é bem conhecida em psicanálise “a tormenta que precede a calma”, ou seja, o fato de que “toda vez que o tratamento ataca um sintoma ou atitude neurótica, se produz geralmente um recrudescimento do sintoma, antes que o paciente possa abandoná-lo por completo”.

Alexander (1965, p. 87) levanta também que caberia colocar-se em dúvida se uma só experiência, a experiência do encontro terapêutico, poderia desfazer os efeitos acumulados de um mal que se construiu durante anos. Responde, dando testemunho do “tremendo efeito que tem sobre jovens delinqüentes o mero fato de a atitude do terapeuta não seja crítica e moralista, mas, pelo contrário, a de um amigo benévolo e desejoso de ajudá-los”. Realçando ainda mais a importância dessa experiência que chama de “emocional corretiva”, Alexander (1965, p. 87) afirma que, para algumas pessoas, “os marcantes contrastes entre suas próprias reações autocríticas e superegóicas, e a atitude tolerante do analista, pode bastar por si só para produzir resultados profundos”. Mais tarde, Carl Rogers (apud SANTOS, 1982, p. 60), teorizando sobre a postura do terapeuta em um processo de terapia, afirma, em consonância com Alexander, que o cliente,

ao verificar as atitudes de consistência e de consideração positiva e incondicional do terapeuta, passa a tomar as mesmas atitudes para consigo, aceitando-se e reconhecendo-se tal como é e, portanto, pronto a mover-se para a frente, no processo de amadurecimento. Sente-se capaz de retirar as fachadas que tem usado, eliminar certas defesas e abrir-se ao que realmente é.

Como afirmei no início deste artigo, e como já dei a perceber, há nas reflexões e na proposta de Alexander sobre esse aspecto da relação terapêutica alguns pontos de aproximação com a proposta gestáltica. Essas aproximações não nos devem, no entanto, fazer perder de vista que há também diferenças importantes – chego mesmo a pensar que Alexander, preso ao olhar psicanalítico da época, provavelmente não se deu conta de que há, na proposta que faz, elementos que ele não aprofundou suficientemente. Alguns desses elementos, mais tarde, foram tratados e ampliados por autores da psicologia fenomenológico-humanista, como Perls e Carl Rogers.

Algumas das mais notáveis diferenças entre a proposta de Alexander e a proposta gestáltica, e que justificam a mudança do conceito de experiência emocional corretiva para o de experiência emocional atualizadora, se apoiam na maneira como se compreende a neurose e, por via disso, a própria psicopatologia.

Para Alexander (1965, p. 16), “toda neurose e toda psicose representam um fracasso do ego no cumprimento de sua função de assegurar gratificação adequada às necessidades subjetivas, segundo as condições exteriores existentes”. Para o autor, essa definição vale para todo tipo de perturbação mental, sejam as de origem corporal (derivadas de questões “mecânicas, infecciosas, tóxicas ou degenerativas”) ou as “que se desenvolvem como resultado de experiência traumáticas”, sendo que, no caso dessas últimas, “a psicoterapia trata de restabelecer esta capacidade do ego por meios psicológicos.”

Quero ressaltar nessa definição de Alexander, de cunho psicanalítico, aquela que é a grande diferença ante um olhar gestaltista para a neurose e a psicose: a neurose e a psicose não são encaradas, numa abordagem fenomenológica, como “um fracasso” da pessoa na gratificação adequada de suas necessidades, mas, ao contrário, como um sucesso, na medida que representa a maneira mais criativa que a pessoa conseguiu para manter sua integridade. Ou, nas palavras de Pimentel (2003, p. 51),

a função dos mecanismos neuróticos, na teoria da Gestalt-terapia, é uma função saudável, constituindo um modo de auto-regulação que, embora impedindo que o ciclo figura-fundo seja permanentemente renovado, permite que o seu funcionamento seja possível.

Se buscarmos nos fundamentos da Gestalt-terapia, encontraremos em Perls (1977b, p. 45) uma definição relacional para a neurose, ou seja, a compreensão da neurose como proveniente da relação do homem com seu ambiente, o qual, na neurose, influi demasiadamente sobre o ser humano.

Para Perls, a neurose é “uma manobra defensiva para protegê-lo contra a ameaça de ser barrado por um mundo esmagador. Trata-se de sua técnica mais efetiva para manter o equilíbrio e o sentido de auto-regulação numa situação em que sente que as probabilidades estão contra ele”.

Perceba que Perls trata a neurose como uma “manobra defensiva” e “sua técnica mais efetiva para manter o equilíbrio e o sentido de auto-regulação”, ou seja, a neurose é um sucesso.

Sérgio Buarque (2007, p. 160), comentando a abordagem gestáltica sobre a neurose, diz que uma das principais contribuições dessa abordagem é

a genial noção de neurose como ‘distúrbio do crescimento’ pessoal e não defeito de personalidade, (o que) altera, na sua essência, a idéia anteriormente vigente de uma estrutura defeituosa ou de uma tipologia neurótica. Prevalece então a idéia de disfunção, que, pela contextualidade dinâmica e contínua, não se repete e sim se recria a cada instante. É aí que se percebe a pessoa podendo também a cada instante ser trabalhada. Rompe-se o mito do trauma como acontecimento original, o bigue-bangue transformador da psicoterapia numa ‘arqueologia’.

Idêntico raciocínio vale para a psicose, muito embora nela as perdas na qualidade do contato sejam, obviamente, mais severas.

A compreensão da neurose como um sucesso deriva, em Gestalt-terapia, da influência de Kurt Goldstein sobre o casal Perls no início de sua formação e também da compreensão do que é um ajustamento criativo.

Na visão da Gestalt-terapia, o ser humano é um ser em relação, é um ser inserido num campo organismo-meio, é um ser que age criativamente num meio. Ajusta-se ao meio e ajusta o meio a si, numa infinita troca.

O bom ajustamento é o chamado “ajustamento criativo”, ou seja, ele se baseia em um diálogo entre a novidade e a conservação, o que permite uma reestruturação, ou seja, permite que algo novo seja assimilado ao velho, gerando uma nova configuração.

É através de ajustamentos criativos que a pessoa pode superar o que já não é funcional, sem negar a importância do vivido, mantendo-se um constante processo e em constante ampliação de sua autonomia, dentro das possibilidades que encontra em seu ambiente (TELLEGEN, 1984, p. 45).

Perls (apud JACOBS, 1997, p. 97) define o ajustamento criativo como “um relacionamento entre pessoa e meio no qual a pessoa com responsabilidade contata, reconhece e lida com seu espaço de vida e se responsabiliza por criar condições que a conduzam ao seu próprio bem-estar.” É o ajustamento criativo que permite a uma pessoa aproximar-se ao máximo que possa de contatos nutritivos e afastar-se ao máximo que possa de contatos tóxicos, em sua perene busca pelo desenvolvimento de seus potenciais.

Sob o olhar gestáltico, a neurose é uma maneira de ajustamento criativo, ou seja, é a melhor configuração que a pessoa conseguiu alcançar para continuar a se desenvolver, mesmo que o ritmo de seu crescimento tenha que ser diminuído. Ao se neurotizar para sobreviver em um ambiente hostil, a pessoa se defende e preserva sua capacidade de crescimento e se mantém em um estado de emergência crônica de baixa intensidade até que possa ou tenha que se movimentar e romper esse estado para enfrentar novas necessidades ou novos desafios que a vida lhe impõe. Em outros termos, podemos dizer que a neurose é uma maneira criativa de a pessoa manter vivo o processo de auto-atualização, a busca infindável de ser o que se é.

A neurose é uma dificuldade de atualização. Essa é a idéia mais clara da neurose do ponto de vista da Gestalt-terapia, ou seja, o neurótico não pôde atualizar-se como seria desejável, e, por isso, cristalizou-se, quer dizer, ele repete, repete, repete um ajustamento que não dá mais certo porque anacrônico, embora, na origem, este ajustamento tenha sido providencial, salvador, pois foi a maneira mais criativa que o indivíduo teve para não sucumbir ante a pressão do ambiente. Agora, quando esse ajustamento se mostra dolorido, desatualizado, ele precisa ser refeito, atualizado, mas não corrigido.

Dentre outros motivos para que não se pense em corrigir, posso citar, de momento, o fato de que, se pudesse voltar atrás, a pessoa faria tudo novamente do mesmo jeito, e faria tudo novamente do mesmo jeito porque esse jeito foi, à época, o ajustamento mais criativo que ela pôde fazer.

Esse ajustamento foi tão bem feito à época, que permitiu à pessoa chegar agora até o terapeuta para pedir ajuda, ou seja, a pessoa sobreviveu e manteve presente sua capacidade de criar, a mesma capacidade que hoje lhe possibilita perceber a dor e procurar ajuda para voltar a se atualizar de uma maneira menos cristalizada. Desta forma, não há o que corrigir, há o que atualizar.

O conceito de auto-atualização é básico para a compreensão da neurose do ponto de vista da abordagem gestáltica, embora haja aí alguns problemas quanto a traduções do inglês para o português. Goldstein (2001) usa em seu livro o termo “Self-actualization”, o qual, em português, muitas vezes é traduzido por “auto-regulação”, e não “auto-atualização”. Como prefiro a segunda tradução e não quero modificar textos publicados em português, compreenderei aqui as duas expressões como equivalentes.

Para Goldstein (1966, p. 201), “há só um motivo pelo qual os seres humanos se movem: a tendência à auto-atualização”. Goldstein diz ainda, baseado nas observações que fez em seus pacientes, que eles “não podem se auto-atualizarem sem respeitarem seu entorno em alguma medida, especialmente as outras pessoas”. Para Goldstein (1966, p. 203), “a auto-atualização de uma pessoa só pode ser alcançada através de alguma renúncia em favor de alguém, e da solicitação de renúncias por parte de outros”.

Nessa troca de ganhos e de renúncias que caracteriza as relações humanas e as relações do ser humano com seu ambiente, a cada momento a pessoa alcança a melhor configuração que pode, a fim de manter-se crescendo. E aqui temos outra diferença quanto ao conceito de Alexander sobre a neurose e a psicose: enquanto Alexander, por causa de seu referencial psicanalítico da época, se fundamenta em uma psicopatologia de conflito e defesa, uma abordagem fenomenológico-humanista, embora não descarte a importância desse olhar, privilegia a compreensão da neurose como um problema de desenvolvimento, como, aliás, já vimos em Buarque (2007).

Explicando o que é um modelo de conflito e defesa, Jacobs (1997, p. 147), afirma que neste modelo compreendem-se as desordens emocionais como basicamente internas e derivadas de “conflitos entre impulsos, ou de conflitos entre impulsos e o princípio de realidade do ego, assim como das defesas que surgem contra esses conflitos”.

Nesse olhar, se compreende o ser humano em sofrimento emocional como desejoso “de reter os impulsos infantis, desistindo deles com relutância para se adaptarem às demandas da realidade.” Esse é o modelo que encontramos na definição de Alexander, citada acima, para a neurose.

No outro modelo de compreensão do sofrimento emocional, o modelo desenvolvimentista, segundo Jacobs (1997, p. 147),

as desordens surgem quando há um vínculo pobre entre as necessidades de desenvolvimento da pessoa e os recursos e as possibilidades do meio ambiente, resultando em interrupções no desenvolvimento, um processo de desenvolvimento que foi impedido de prosseguir.

A Gestalt-terapia, especialmente a Gestalt-terapia de Curta Duração, tem sua estratégia clínica fundamentada no modelo desenvolvimentista, uma vez que esse é o campo por excelência de uma psicoterapia fenomenológico-humanista. O próprio Perls (1997, p. 11), na apresentação à edição de 1969 do Gestalt-terapia, afirma que

a Gestalt-terapia agora está se tornando maior de idade, embora eu tenha escrito o manuscrito original, se tanto, há vinte anos. [...] A ênfase global, entretanto, mudou da idéia de terapia para um conceito gestáltico de crescimento (desenvolvimento). Agora considero a neurose não uma doença, mas um de vários sintomas de estagnação do crescimento (desenvolvimento).

Por causa dessa diferença na noção de psicopatologia, há importantes diferenças quanto à postura e a presença do terapeuta ante seu cliente e também diferenças quanto aos propósitos da própria psicoterapia.

Como bem lembra Boainain (2007, p. 12), por ver o homem como “um ser em busca e construção de si mesmo, cuja natureza continuamente se desvela e exprime no realizar de suas possibilidades e na atualização de seu potencial, compreendem os humanistas que só se é pessoa, só se é realmente humano, no autêntico, livre e integrado ato de se desenvolver”.

Daí decorre, na psicologia fenomenológico-humanista, a compreensão da natureza humana “como algo fluido: uma tendência para crescer, um movimento de sair de si, um projetar-se, um devir, um incessante tornar-se, um contínuo processo de vir-a-ser.”

É a partir dessa compreensão de homem que Ribeiro (1999, p. 135) pode afirmar que a finalidade prioritária (embora não única) da Gestalt-terapia de Curta Duração é a de “liberar as forças preservadas da personalidade e não a de debelar sintomas”. Segundo este autor, num processo de Gestalt-terapia de Curta Duração, o que se busca é facilitar à pessoa que reencontre “sua capacidade de fluir, de ser espontânea, porque essas capacidades pertencem à natureza da pessoa, pois provêm de um mecanismo inato no ser humano, que é o de auto-regular-se”.

Decorre, então e também, dessa diferença quanto à compreensão da psicopatologia nossa de cada dia a impossibilidade para os gestaltistas de utilizarem o conceito de experiência emocional corretiva de Alexander, sendo necessário compreendê-lo como experiência emocional atualizadora, uma vez que o sofrimento neurótico implica em que o desenvolvimento precisa ser retomado em um ritmo melhor, ser atualizado, e não corrigido.

Outro ponto em que, me parece, a Gestalt-terapia avança para além da proposta de Alexander diz respeito ao como se dá essa relação terapêutica que pretende provocar no cliente uma experiência emocional atualizadora. Embora as idéias de Alexander tenham a virtude de já trazer em seu bojo um avanço quanto ao excessivo privilégio dado à transferência na psicanálise mais clássica, ainda lhe falta uma questão que para os gestaltistas é primordial: a relação terapêutica é algo que se dá entre o terapeuta e seu cliente, e não algo que o terapeuta vá proporcionar ao cliente.

Para Perls, Hefferline e Goodman (1997, p. 36),

a situação terapêutica é mais do que somente uma ocorrência estatística de um médico mais um paciente. É o encontro de médico e paciente. O médico não será um bom terapeuta se for rígido e insensível às necessidades específicas de uma situação terapêutica que está sempre mudando. [...] (O médico)

Não é um terapeuta se se recusa a ser parte dos processos em andamento na situação psiquiátrica. Do mesmo modo, o comportamento do paciente é ditado por muitas variáveis da entrevista, e somente os 100% rígidos ou dementes (esquecidos do contexto no qual operam) comportar-se-ão no consultório como se comportam fora dele.

Perls, Hefferline e Goodman descrevem a situação terapêutica como diretamente derivada da interação do organismo com o ambiente, não os dois, organismo e ambiente, tomados em separado. Para facilitar que o cliente recobre sua awareness total e retome seu processo mais pleno de auto-atualização, a abordagem gestáltica toma a situação clínica como uma situação experimental (PHG, 1997, p. 37).

Isso quer dizer que é preciso que o terapeuta se engaje na situação terapêutica, que ele se lembre de que se é a experiência de cada situação vital o que possibilita o sentimento da própria existência e da existência do outro e do ambiente, isso igualmente é válido para a situação clínica. Nela, o terapeuta faz e é feito pela situação, tanto quanto seu cliente.

Dessa maneira, podemos conceber a psicoterapia como uma situação que vai proporcionar ao cliente a experiência de buscar a criação de novas respostas ajustadas criativamente ao caráter novo da situação. No dizer de Perls (1977b, p. 113), que se aproxima bastante, nesse aspecto, do dizer de Alexander,

se mudarmos a atitude do paciente em relação ao comportamento de interromper que ele apresenta no consultório, sua atitude mudada eventualmente se expandirá e abarcará seu estilo, natureza, seu modo de vida. Seu comportamento aqui e agora é um corte microscópio de seu comportamento total. Se ele vir como é estruturado o seu comportamento na terapia, verá como o estrutura no cotidiano.

Essa postura diante da situação clínica, essa atenção a como se desenrola o encontro terapêutico a cada sessão, leva a uma percepção mais acurada do que está ali, e a uma disponibilidade mais generosa para o que está ali.

Isso quer dizer que, atento ao que acontece, o terapeuta se liberta de uma postura que poderia deixar implícita uma exigência de que algo devesse estar ali.

Com isso, o acolhimento ao cliente, a possibilidade da empatia, da compaixão e da inclusão se fazem mais claramente presentes na situação clínica, o que, por sua vez, possibilita mais consistentemente que o cliente possa fazer dessa situação e dessa relação uma experiência emocional atualizadora.