A RELAÇÃO DE AJUDA
REFLEXÕES SOBRE O CURADOR E O FERIDO
Não existe possibilidade de auto conhecimento e de crescimento sem que o confronto consciente com a sombra1 aconteça. Deste confronto, uma situação de crise se instala, levando o indivíduo a sintomas e a uma condição de alerta, tornando-o o ferido que vai buscar a ajuda de um curador que, provavelmente, já está lidando ou irá lidar, de forma consciente, com a sua própria ferida, razão pela qual o levou a escolher este ofício Sagrado.
A vida civilizada exige hoje um funcionamento consciente, concentrado, dirigido, e isso acarreta o risco de uma considerável dissociação do inconsciente. Portanto, quanto mais nos entregamos para a fragmentação do racionalismo, mais nos perdemos do holos, que significa totalidade, ficamos alienados de nós mesmos e necessitamos de uma religação urgente, e esta só pode acontecer via Sagrado, pois, no Sagrado, é que temos a superação da alienação do si-mesmo.
Quanto mais somos obrigados a nos afastar do inconsciente, através da racionalização rígida, mais prontamente uma poderosa contraposição pode formar-se no inconsciente e, quando explode, talvez provoque desagradáveis conseqüências. Esta é a manifestação da sombra que aparece gerando crises individuais e coletivas, muitas vezes de forma violenta e desmedida.
Quando os sofrimentos, que violam2 os indivíduos, explodem em crises e são relatados pelos pacientes em forma de queixas, passam a constituir um meio para que o Sagrado, face a violência da dor e dos sintomas, se manifeste do imanente para o transcendente. Então, a doença pode ser vista, também, como um ofício Sagrado, um sacrifício imposto ao homem contemporâneo para iniciar-se rumo à transcendência.
Desta forma, quando o “grito” dos deuses, manifesta nas várias doenças, é percebido como uma possibilidade para a superação do sofrimento inconsciente e paralisante, o estado de saúde é reconquistado, pois o ego deixou de ser surdo para os gritos do si-mesmo, podendo atingir o seu mais alto fim existencial que, inevitavelmente, está ligado ao fazer Sagrado.
O estado de saúde é uma condição dinâmica e inconstante que permite a experiência de plenitude e totalidade. Assim, tanto o bem estar como o sofrimento deve fazer parte deste conceito, pois pertencem à unidade humana, que possui a multiplicidade dos fenômenos. O indivíduo saudável pode perceber o Sagrado que estava sombreado na inconsciência, discriminando a polaridade que somos, vivenciando, na consciência, o conflito entre o ego e o inconsciente, porém isso lhe remeterá a uma relação direta com o sentimento de angústia vital ou essencial, que poderá estimulá-lo a uma condição constante de crescimento ou à paralisia no medo.
E, esta situação é instintiva, pois é comum em todos os seres humanos.
Somos influenciados por cinco tipos de instintos3 básicos, sendo que os instintos de sobrevivência, crescimento e perpetuação, são comuns à todos os animais e seres vivos, independente da espécie ou ordem evolucional que esteja, manifestando-se na forma de fome, trabalho, para o crescimento e a proteção, e sexualidade, para a transmissão do estoque genético, respectivamente.
Porém, o ser humano, tem mais dois instintos que geram, simultaneamente, angústia, sofrimento e sentido para a vida; são os instintos da reflexão e da criatividade; estes instintos fazem com que não nos contentemos, simplesmente, com a manutenção da vida, através da realização dos primeiros três instintos, exigindo que questionemos nossa existência, seu significado e seu destino, gerando dor e angústia, mas também, criatividade e transcendência.
A natureza humana, principalmente em função da razão, cria o processo de psiquificação4 dos instintos, fazendo com que os fenômenos naturais se tornem cheios de mitos e interdições, gerando medos, angústias e tabus para a realização mais simples e natural dos instintos.
A psiquificação gera explicações e reduz as necessidades instintivas, criando conflitos neuróticos e dificuldades para as mudanças evolucionais, pois cria mitos, e suas conseqüentes interdições, para os ritos instintivos e naturais.
A angústia é um adjetivo, originário do latim, que significa estreiteza, restrição, redução e aperto. É um estado emocional que está ligado a sentimentos de ansiedade, sofrimento, aflição intensa, ânsia e agonia.
Kiekegaard diz que a angústia é uma experiência que revela a condição espiritual do homem, mas que pode despertá-lo para a liberdade.
Heidegger afirma que a angústia é a disposição afetiva que revela ao homem o nada absoluto sobre o qual se configura a existência.
Eu creio que a angústia é o prêmio daquele que goza da liberdade, pois não existe nada mais angustiante do que fazermos escolhas e deixarmos alguns caminhos ou apegos de lado.
Neste paradoxo é que se fundamenta a existência humana, porque queremos liberdade, mas ficamos inseguros em lidar com ela, desta forma, o poder, que é paralisante e dogmático, nos tira simultaneamente da angústia de escolher e da liberdade para crescer.
Quando converso sobre a liberdade, com meus clientes, percebo que, muitos deles, acabam dizendo que ser livre é poder escolher com quem e como vão estabelecer uma relação de dependência e de servidão. Mas, também percebo, que, paradoxalmente, um outro grupo, não menos significativo que o primeiro, diz que ser livre é não ter escolha alguma, como se uma certeza absoluta invadisse o âmago do seu ser, não deixando dúvidas quanto ao caminho vivido.
Acredito que ambas afirmativas são verdadeiras, podendo, por mais paradoxal que pareça, coexistir, simultaneamente, no ego do mesmo indivíduo. Este, com certeza, estará muito próximo do que chamamos, na psicologia Analítica de individuação e, na Homeopatia do atingir o mais alto fim existencial.
O trabalho, do verdadeiro curador ferido, é de permitir, pelo método da hermenêutica5, com que o cliente entre em contato com os materiais inconscientes, dando-lhes um significado simbólico e incomum à consciência, concientizando-o que a condição de liberdade lhe remeterá a um compromisso com a existência e a uma angústia transformadora. Não buscamos uma condição paradisíaca de vida, estimulamos é para a busca de significado e sentido para a vida, através do trabalho Sagrado, ou Sacro Ofício, que o Eros6 da vida exige.
Como objeto de trabalho temos, desde o que vem espontaneamente do inconsciente através dos sonhos e dos sintomas psíquicos e ou físicos, até o que podemos estimular através da ampliação simbólica, imaginação ativa, fantasias, meditação e etc. Com a inclusão da dimensão do estado incomum de consciência o ego passa a lidar com o campo da espiritualidade no contexto diário.
A inclusão da dimensão espiritual nos remete a diversos espectros da consciência, abrangendo os domínios arquetípicos do inconsciente coletivo, os conteúdos subliminares que foram sendo registrados ao longo de toda existência, inclusive da intra-uterina até o momento presente, gravados no inconsciente pessoal. E, quando um material emerge à consciência, acreditamos que a energia psíquica começou a ser veiculada através de um núcleo de memórias, emoções, afetos e experiências vividas pelo consciente ou não.
Quando ocorre este fenômeno dizemos que um complexo foi constelado, ou que o núcleo miasmático se manifestou. Ao lidarmos com o material emergente pretendemos permitir a conscientização deste complexo, cujo conteúdo denuncia o caminho a ser superado, integrando-o ao ego. E, com isso estimulamos o crescimento do indivíduo total, de forma ecológica e vital.
Todo o processo deve acontecer em um lugar Sagrado, que podemos chamar, metaforicamente, de vaso hermético ou têmenos, através do qual as transformações possam ocorrer, utilizando-se os meios simbólicos para que as trocas possam acontecer, onde o Self começa a agir no sentido da busca da totalidade e da vida.
Através da significação simbólica dos sintomas, que emergiram na crise, da análise biopatográfica, dos conteúdos oníricos e das emoções, podemos encontrar o núcleo miasmático ou o complexo central que influencia a existência do ser.
O curador apenas acolhe, oferece local seguro e estímulo para que o próprio Self do ferido contribua para a evolução e o crescimento.
A doença significa, simultaneamente, um afastamento do curador interno e a possibilidade de resgatá-lo. Neste sentido, o verdadeiro ofício é homeopático, pois o que está ferindo tem o poder de curar e o curador, apenas vão permitir que o ferido entre em contato, de forma segura, com a sua própria ferida, que é o seu núcleo de sofrimento e crescimento, que também chamamos de núcleo miasmático.
As emoções, conscientes e inconscientes, que não são liberadas ficam presas em alguma parte da unidade psicossomática. Assim os sintomas fazem parte do processo de cura, sendo algo que quer sair, porém não consegue ser libertado, provocando, como conseqüência, um aprisionamento do ser.
Quando intensificamos os sintomas, agindo no modelo da homeopatia que estimula a cura pelos semelhantes, as defesas ficam diminuídas e o próprio Self se encarrega de liberar o sintoma e o segredo que ele estava secretando de forma simbólica e distorcida, podendo haver o resgate das emoções perdidas, do significado dos medos e do sentido da vida.
A energia represada começa a caminhar livremente, o ego se integra ficando mais estruturante, pois pode lidar seguramente com o material simbólico do inconsciente, e o complexo que estava constelado se dissolve.
Com isso o que buscamos é um ego forte e estruturante que permita que os conteúdos simbólicos se manifestem, incluindo a dimensão espiritual no cotidiano comum e profano, pois só assim é que o sentimento de plenitude e de superação da alienação primordial se resolve.
Cada indivíduo tem o seu próprio fluxo energético, onde a energia fica paralisada surge o sintoma, quando o fluxo é liberado tudo volta em sintonia com a dança cósmica do Eros, que vivifica e nos coloca frente à dualidade de nascimento e morte.
O objetivo do trabalho é, cada vez mais, fazer com que a presença do curador seja despercebida, pois o verdadeiro terapeuta é o curador ferido8 do próprio cliente.
Desta forma, o profissional de ajuda se torna um facilitador e um parteiro que vai conduzir e estimular que a relação do ego com o Self, de seu cliente, aconteça. Neste momento sua função será de mediador e estimulador desta relação, que entendemos ser Sagrada.
Por isso o curador não precisa ser forte, poderoso nem altamente técnico, mas sensível, empático e conhecedor da capacidade auto-reguladora e curativa do Self.
Em função das colocações anteriores é que o curador não deve interpretar o material que seu cliente venha a trazer, seja através de sonhos, sintomas psíquicos e ou somáticos, fenômenos sincronísticos, vivências, etc.
A função do curador é de apenas ampliar simbolicamente o material trazido, oferecendo mais material para a relação do Ego com o Self de seu cliente.
Em outras palavras, o material trazido pelo cliente não pode ser conspurcado, por ser de origem Sagrada, e só no resgate da relação Sagrada do Ego com o Self é que terá sentido o trabalho.
Nesta experiência o que surge é um espaço transpessoal, onde o racionalismo acadêmico e as tradições se encontram, onde as antinomias presentificam-se e o simulacro do cotidiano desaparecem, pois a vida em sua maior expressão surge.
Isso é o verdadeiro Eros, onde ciência, vivências arquetípicas, emoções, arte, nascimento, morte, movimento, enfim o Amor acontece, pois todos os opostos se encontram e a fragmentação tende a desaparecer. Neste espaço é que transita a verdadeira vida, este Eros que não podemos reduzir a explicações, nomeações nem qualificações.
Uma numinosidade que nos remete ao Sagrado imanente, tornando-o transcendente, nele está contido os opostos, a cura e a degeneração, onde tudo que existe está imerso na dança do nascer e morrer, este é o espírito do Universo, o uno em versos, e a sua negação é a paralisia, não como morte pois na morte também existe movimento e ela faz parte do Eros. Desta forma o oposto a Eros não pode ser Tanatos, como Freud sugeriu em sua obra, mas a estagnação provocada pelo medo que em grego podemos nomear de Phobos.
Na vida, temos apenas duas certezas: a primeira é de que um dia vamos morrer, a segunda é de que enquanto não morremos, vivemos. Mas quem vive com medo da morte, pelo medo, fica paralisado e deixa de viver.
Quem vive pelo Eros vive o numinoso, o Sagrado, as transformações e transmutações da evolução do dia a dia, seguida de sucessivas mortes e nascimentos, percebendo que uma vida sem sentido, não tem sentido. Quem vive pelo Phobos, vive o medo que paralisa, fazendo com que o desejo de poder se manifeste intensamente, por isso poder é sinônimo de estagnação e de crise.
O poder camufla o Phobos, afasta o Eros, dando a falsa impressão de vida, porém é uma vida de simulacro, onde a evolução é negada. Na dinâmica do poder o que temos é a arrogância do saber que impede a humildade da busca, fazendo com que teorias e técnicas dogmáticas sejam valorizadas, pois estas se afinam muito bem com a necessidade de poder que encobre o medo do novo e da vida.
O racionalismo desmedido gera uma dissociação psíquica e impede com que as pessoas percebam suas limitações e seu lado obscuro, os conteúdos sombrios, os complexos e as potencialidades que estão encerradas no inconsciente. Em função disso, é que esta frase se torna verdadeira: “Quem olha para fora está sonhando, quem olha para dentro, está acordado.”
Teoria vem do grego, teorai, que significa contemplar, com isso não pode representar uma forma específica de agir, mas uma maneira diferente de ver. As teorias deveriam servir para que uma condição de atenção, ausência de tensões, se estabeleça nas relações de ajuda, onde o foco de observação é voltado para a natureza e para a busca de significado, que podemos chamar de mito pessoal.
Quem vive seu mito pessoal, encontra o seu rito pessoal, pois o rito serve para atualizar o mito, mas o mito, sempre, irá provocar um impedimento ou uma interdição.
Desta forma se o mito que está me influenciando não for o meu mito pessoal, imediatamente estarei sofrendo as interdições para a mudança evolucional. Por isso é que devemos buscar a essência de cada um para que o mito pessoal seja “re-conhecido”.
A natureza humana é ritualista, tudo o que iniciamos provoca uma situação de stress e, rapidamente, todo o organismo se empenha para criar uma adaptação, uma assimilação e acomodação rotineira e ritualista para a nova atividade.
Geralmente as novas atividades, depois de terem sido assimiladas e vividas ritualmente no cotidiano profano, não nos remetem ao numinoso e ao Sagrado, pois elas não estão alinhadas com o nosso mito pessoal e não provocam o maravilhamento que engrandece e provoca vontade de criar e trabalhar.
As atividades “profanas” estão alinhadas com o mito do homem contemporâneo, que fragmentou a unidade e tenta, desesperadamente, negar o lado sombrio do si-mesmo.
Este mito é imposto de forma direta e indireta, desde a concepção, influenciando todos os indivíduos para este modelo de homem, cujos valores são o materialismo e o racionalismo. Este homem está , cada vez mais, inseguro e doente, enfim é um ser cindido, alienado e isolado do outro de si-mesmo.
Quando adoecemos, parece que uma nova realidade se manifesta. Neste momento ficamos impossibilitados de continuar a representar o rito cotidiano, profano e sem significado. Mas é o momento Sagrado de poder encontrar o mito pessoal e, quem sabe, desenvolver o rito pessoal que passa a ser o trabalho Sagrado que nos integra e dá significado para a vida. Quem encontrou o seu rito pessoal, desenvolveu os seus “auto-ritos” que lhe confere autoridade.
A verdadeira autoridade, aquela que identificamos nos sábios, é simples, sem força interior ou exterior, pois ela vem do íntimo e do centro de cada um. A autoridade vem daquele que encontrou o seu mito pessoal e, por conseqüência, o seu rito pessoal. A autoridade é adquirida, ela se distingue do poder.
Poder que é algo imposto e serve para esconder a fragilidade, o medo e a falta de coragem, que é a ação do coração. Quem conquistou a autoridade tem coragem e encontra o prazer no simples e no ordinário, porque não precisa da ilusão do perfeito e do extraordinário para ser pleno e feliz.
Todo curador deve entrar em contato com a sua ferida para ter condições de ativar o curador ferido de quem lhe pede ajuda. Nunca somos nós, os profissionais de ajuda feridos, que curamos as doenças, pois sempre são elas é que vão nos curar verdadeiramente.
Por isso devemos ir ao encontro das doenças para alcançarmos a verdadeira cura e o caminho que nos dará significado. Se eu tirar a doença de alguém, na verdade estarei mutilando aquele que pensava ajudar.
Não podemos tirar do outro aquilo que exclusivamente à ele pertence, principalmente porque, neste material sombrio e indesejado, está escondido todo o tesouro da sua existência.
Da relação de ajuda sempre vai ser constelado o arquétipo9 do curador ferido para fazer com que a doença seja transformada em caminho de cura. Daí surge, inevitavelmente, relações profundas que, a meu ver, não podem mais ser chamadas de transferência e de contratransferência. Pois, o que acontece é uma situação que, por uma questão de coerência, deve ser chamada de relação co-transferêncial.
É uma troca intensa e profunda de conteúdos conscientes e inconscientes, que foge do controle e que acontece desde o primeiro instante que uma das partes envolvidas começa a pensar na outra.
Desta forma, pela lógica, é eliciada pelo cliente, logo ao receber a indicação do médico. A partir deste instante, de maneira energética e inconsciente o processo de empatia ou de antipatia vai sendo construído, até a concretização do encontro.
Neste momento já está estabelecido um vínculo com expectativas e projeções de ambos os lados. Onde, o paciente projeta a cura mágica no seu médico e este, por sua vez, corre o risco de projetar a doença incurável no seu paciente. Se esta situação se estabelece, o que é muito mais comum do que podemos imaginar a possibilidade da verdadeira cura jamais será atingida.
Todo profissional de ajuda tem um trabalho mercurial, na alegoria alquímica. Mercúrio é o deus mensageiro dos Romanos, Hermes para os gregos, Thot para os Egípcios ou Exú para a mitologia Iorubá.
Este deus tem a capacidade de ser o psicopompo, transformador e transportador das almas. Ele pode, simultaneamente e paradoxalmente, encontrar o ouro e destruí-lo, tem a capacidade de formar o amalgama das ligações, permitindo atar ou desatar os nós.
Com isso temos uma grande arte pela frente, a arte de permitir com que o processo evolucional e circular do envolver-se e desenvolver-se aconteça, primeiro em nosso íntimo, para depois permitir que esse movimento seja vivenciado no íntimo de nosso paciente. Só assim ele poderá encontrar o ouro que estava sombreado nos sintomas e atingir o seu mais alto fim existencial.
O curador ferido está presente em todo o profissional de ajuda e, pelo diagrama usado por Jung, podemos perceber, de forma esquematizada, os canais de comunicação que se manifestam nos relacionamentos.
CONSCIÊNCIA
CURADOR FERIDO
MÉDICO PACIENTE
SOMBRA SOMBRA
do FERIDO INCONSCIENTE do CURADOR
O desenho mostra que a comunicação acontece em todos os sentidos. Deste modo, é extremamente importante que as feridas do médico sejam conhecidas pela sua consciência.
Caso contrário corre-se o risco de que as feridas do cliente ativem as feridas do curador, provocando várias reações de defesa, entre elas, e a mais comum, a de refugiar-se no arquétipo do salvador, tornando-se aquele tipo clássico do médico onipotente, que resolve e sabe de tudo, infligindo, invariavelmente, no risco de abuso de poder com conseqüências conflituosas e desastrosas para ele e para seus pacientes, que acabam assumindo o arquétipo do inválido, com doenças crônicas e incuráveis, produzindo grande angústia e sofrimento ao médico salvador que, de forma desesperada, busca qualquer meio para manter sua onipotência, trombando com a ética, a moral e o digno de ser curado.
O profissional de ajuda deve conquistar a autoridade, abrindo mão do poder. O poder paralisa e produz relações perversas com características sádicos e masoquistas.
A autoridade vem do “auto-ritos”, é a conquista daquele que se entregou ao caminho do “conhece-te a ti mesmo”, liberou-se das expectativas sociais e encontrou o sentido e o significado de seu trabalho, pois percebe que este é o seu ofício sagrado.
Com isso, vive no ritmo do seu rito pessoal, evoluindo na circularidade do envolve e desenvolve com autoridade, segurança e paz de espírito.
Por isso, viver implica aprender constantemente com todas as experiências que abarcam o ser, exigindo a não fixação dos padrões habituais. Essa é a diferença entre o homem contemporâneo e o homem moderno proposta por Jung.
Para transcender da consciência concreta instintiva e adaptativa e despertar a consciência simbólica e transpessoal o homem tem que morrer pra germinar.
Esse processo gera uma nova personalidade que é o terceiro elemento integrador entre as consciências ( de primeira e segunda ordem) e os inconscientes (pessoal e coletivo).
Não é uma separação, mas numa união, num só corpo. Não existindo mais separações, atingindo a totalidade, o Si-mesmo. Um símbolo unificador, nossa arquitetura, representando a união dos opostos.
A idéia de conjunção esclarece a ligação química e alquímica representando a união dos opostos. Numa união mística, onde os arquétipos, apesar das formas exteriores que assumem, também representam a essência e a alma inata no indivíduo. A alma individual em relação com o Mundo Espiritual, condição necessária para se estabelecer a psique individual.
WALDEMAR MAGALDI FILHO
sábado, 3 de abril de 2010
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